Filosofia do Samba de Candeia

candeia - filosofia do samba2

Escrever sobre Antônio Candeia Filho é muito fácil pra mim, na verdade, é até previsível, já que a ideologia deste blog é justamente sua visão cultural do Samba e a percepção de que é preciso sempre reafirmar e valorizar a raiz de nossa cultura contra as influências externas que tentam a todo momento pegar um tostão de sua autenticidade pra vender de forma pasteurizada e lucrar rios de dinheiro. Não culpo você querer ganhar dinheiro numa sociedade capitalista, como não culpo um tubarão por caçar, mas há prioridades, identidades e linhas ideológicas a se preservar, do contrário tudo seria um mero objeto na prateleira a ser vendido assim como não haveria mais vida no mar além de tubarões (gostei mesmo da analogia aos tubarões, muito jogo de palavras e sentidos profundos em camadas, rá!).

Mas o que me trouxe aqui, além do Samba e ambiguamente só por causa disso foi um motivo duplo: Candeia e o Samba. Candeia, porque neste dia, se estivesse fisicamente conosco, o mestre comemoraria 78 anos de idade, e a parte do Samba fica por conta de um de seus álbuns que mais gosto: Filosofia do Samba, de 1971. Já começa no título e a disposição do layout da capa do disco, com o nome de Candeia bem centralizado e marcado, sobre uma águia azul e branca (sugestivo, huh?) estilizada de asas abertas e o título logo abaixo. É uma percepção visual muito simples, direta e rápida. Aí, vêm as composições e vou fazer rápidas e pequenas avaliações sobre as composições, já que o que o significado do nome, pra mim, eu já comentei no início do texto.

1- Filosofia do Samba é a cereja do bolo que você come antes de se deliciar com a guloseima. Não tenho medo de exagerar ao dizer que todos TODOS os versos dessa música são intensos da tal filosofia do Samba, segundo Candeia. Aliás, só ela já merece uma resenha própria, um texto exclusivo pra ela porque é uma letra muito rica, instrumental muito “pra cima” e melodia cativante (quem frequenta Feira das Yabás sabe).
2- Vem, É Lua te chama pro pagode e te põe no clima. Intercalando o título da canção com versos em estilo partido alto, como aqueles de Aniceto, que o refrão dialoga com a letra. Além do que, falar de Lua no pagode, em se tratando do porte do compositor, é certeza de afastar os sofás e mesinhas de centro pros cantos e sambar como se não houvesse amanhã.
3- Silêncio Tamborim é uma música curiosa, pois ela conta sobre o cara que quer comemorar seu amor retornando. Como quem pede pro samba tocar mais baixinho só pra ele ter a palavra e anunciar sua recente alegria, era sua nega voltando de madrugada, aflita, pedindo perdão por ter ido e voltam às boas depois da tensão que seu relacionamento sofreu. Sempre gostei dessa pela originalidade de se contar essa história.
4- Saudade é tão emocionante, nostálgica que fica até difícil de explicar sem te mandar logo ouvir pra saber do que eu falo. Falando em Zé com Fome, Paulo da Portela e dos tempos em que o Choro se fazia mais presente no cenário musical, o clima de seresta, da música indo pelas ruas, observados e dedicados à lua e esse climão de entrar por uma nostálgica rua do Rio antigo e se perder nas melodias… Aliás, o final da música me proporciona exatamente essa sensanção. É isso, é muito sensorial, deguste com os ouvidos, porque eu ficaria uma semana escrevendo aqui e não ia te passar o prazer da audição.

Zé com fome

Zé Com Fome, o sambista de renome citado em Saudade, juntamente com Paulo da Portela.

5- A Hora e a Vez do Samba retorna à ideia iniciada e bem descrita na canção-título, mas num estilo mais cadenciado e ponderado. Enquanto a primeira vem num tom de “esporro”, essa tem uma nuance mais reflexiva, fala sobre a alegria do povo com o Samba e o carnaval, mas chama à responsabilidade para que a cultura não passe por passar, que a vida precisa desse alento sambista. Sabe, as coisas que alegram o povo.
6- Quarto Escuro chega a parecer até uma canção de fora, pela introdução e o instrumental com uma ambientação que me faz lembrar aqueles efeitos de teclado tipo, órgão. Na verdade, é um arranjo e melodia com um ar mais comedido, intimista – até a primeira metade, depois, fica com uma cara mais típica – que combina perfeitamente com o título e a letra que declara o amor a quem não precisa nem acender a luz quando se chega deixando tudo pra trás apenas desejando a demonstração mútua do amor mais puro.
7- Vai pro Lado de Lá é um partido alto animado que usa o Samba pra falar do próprio Samba e dos Sambistas que agregam admiração pela arte de cantar numa roda de samba. Candeia cita alguns dos feras do Partido Alto, comidas típicas, bebidas clássicas pra esses momentos e, pensando que você está de um lado que não tem, sabendo que outro tem uma roda animada, só dá vontade de ir pro lado de lá e curtir até o Sol raiar. Observação curiosa e engraçada: Na introdução, eu sempre dou risada com a pastora que diz “já tá na hora!”, assim que o mestre diz que vai armar um partido. ;)
8- Saudação a Toco Preto é, a princípio, óbvia demais pra se levantar certos questionamentos, mas vá lá. A música tem uma levada afro e, pelo nome, é uma autêntica saudação ao exú Toco Preto. Se tirar a harmonia do órgão, metais e o baixo/violão, você se sente num terreiro tranquilamente. Mas, por curiosidade, eu cito aqui, ainda descobri o cavaquinista chorão Toco Preto. Essa informação é minha, não tenho fonte que comprove, mas gosto de pensar que ela liga Saudação… a Saudade (do chorinho e dos chorões…).

9- De Qualquer Maneira é tida como uma das mais nítidas de Candeia e sua relação com sua condição de cadeirante. Quando ele fala, além de continuar no Samba ‘de qualquer maneira’, ele fala em trono de rei ou ‘nesta cadeira’ que tem a certeza no coração de que vai seguir cantando seus sambas. É emocionante essa dedicação, esse amor ao Samba. Não dá vontade de fazer por menos.
10- Imaginação é a canção que mais destoa do estilo consagrado de Candeia. Ela é ‘uma pausa pra meditação’ literalmente. Bem lentinha, uma balada, uma oração, um testemunho a uma reflexão de quem para pra sentir reparar na natureza em meio ao cotidiano corrido.
11- Minhas Madrugadas. É um estilo que Candeia soube muito bem defender, além do partido alto e do samba-enredo, aquele samba dolente, em tom menor – pra ficar dramático. Coro trazendo a música para um crescimento que culmina com o refrão e a posterior vocalização. Cadência que não se vê mais hoje em dia.
12- Regresso me faz pensar em como ela é dolente como a anteriormente citada Minhas Madrugadas, mas tem um quê de Silêncio Tamborim, pois, perceba, é novamente a temática de quem aprendeu a valorizar o regresso de sua amada, mas sem pedir que se volte. Como quem está surpreso e feliz com o fato de a pessoa voltar sem exigência sua ou dela. É uma relação amorosa muito liberal e confiante. Rá!

Enfim, é isso, minha homenagem a quem tanto fez pela nossa cultura que me influenciou a criar esse blog e a pesquisar tanto sobre nossa cultura para monografias, artigos e me enriqueceu muito enquanto músico. Sempre serei agradecido a Antônio Candeia Filho.
Quer ouvir o álbum e saber do que eu tô falando? (Claro, considerando que você conseguiu não conhecê-lo até hoje, risos, risos debochados). Clique aqui.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea.
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