Acadêmicos da Comercialização do Samba

A mãe de todas as ironias – sobretudo quando o carnaval está chegando/passou. Samba é uma manifestação cultural do povo. Isso é real. Mas, como eu vou frisar sempre por aqui, a tônica deste blog é enaltecer o valor do samba enquanto cultura e evidenciar a separação dessa faca-de-dois-gumes que é a comercialização do samba. Sim, é muito válido que o samba alcance diferentes públicos, pois uma cultura não sobrevive sem ser difundida. Além, de – de repente – ter muito sambista em potencial fora do circuito podendo conhecer e se chegar justamente por essa divulgação. Mas, justamente por isso, ela pode se acabar no cruel processo de homogeneização até se tornar um amontoado de clichês. Daquilo que um dia foi uma grandiosa cultura de um povo, com ricos e autênticos elementos, fazem restar – no máximo – vagas nuances de melodia, nem um pouco de importância à história e rios de dinheiro para quem não está nem aí para música, história ou cultura popular em geral.

E isso me faz pensar em como grande parte da responsabilidade vem de quem deveria defender essa manifestação popular. Se várias pessoas ligadas ao metiê só se preocupam em defender uma grana e se manter vendendo seu produto, o que dizer das escolas de samba? Sim, escolas de samba também começaram como manifestações populares, mas, hoje, são espetáculos para turistas (povão não sai pagando os ingressos caros). Muitas agremiações – principalmente do grupo especial – já não se preocupam tanto em empolgar a galera com seus desfiles esteticamente deslumbrantes.  Aliás, uma festa popular ser embalada para presente e se satisfazer com o adjetivo “tecnicamente perfeita” é uma ironia maior do que o próprio sambódromo. É Sambódromo Fashion Week. Deveria haver um quesito neste sentido, tipo, “Empolgação do público” para amenizar esse jogo de jurados com suas notas clichês para as mesmas escolas: Escola com grandes patrocínios só levam notão e escolas mais modestas ou emergentes ficam com notinhas. Fora a missão de errar menos e não cair. Pronto o cenário está armado e a gringaiada pode chegar, esfregar os pés no chão e dizer que ama samba.

Carnaval tipo exportação sob nossas barbas em pleno sambódromo.

Outra bizarrice do carnaval fechado (sambódromo) é a escolha de componentes para posições de destaque. Rainhas de bateria, por exemplo, são escolhidas a dedo (UIA!) para atrair público e patrocínio. Uma autêntica passista com samba nas veias? Pra quê?

Tasca uma modelo/atriz/cantora/apresentadora/qualquer-coisa-serve-só- me-deixa-no-meio-do-bolo  e tá tudo certo. Há tempos os holofotes da mídia é que mandam (bem, não no sentido de feito para o povo e pelo povo, mas no sentido de ser famosa no mundo). O que mais representaria a distância de suas raízes do que trazer gente de fora com mais identificação com câmeras e o próprio corpo sarado do que com a escola ou a comunidade que ela representa? Aliás, povão mesmo – quando se mata para pagar fantasias – só serve de gado de manobra. É visível a animação programada dos desfiles. Se ao menos tivessem ganho as fantasias como muitas pessoas que só chegam para capitalizar recursos de popularidade e dinheiro…  Lógico que não me refiro a todas as escolas de samba, mas quem entende alguma coisa do assunto, ou melhor, alguém que já tenha se atentado às rotinas mercadológicas dali, vê que rainhas genuinamente da comunidade são destronadas para coroarem “wannabe’s” que saem em qualquer lugar – não importam as cores – desde que apareçam e sejam prestigiadas (comprando ou ganhando a vaga).

Nosso povo corria do camburão, tinha seus instrumentos quebrados e eram perseguidos como vagabundos, tudo isso para ver os frutos de suas lutas na figura de celebridades e sub-celebridades lotando camarotes de grandes conclomerados afoitos por parecer importantes. O povo? Ah, o povo fica do lado de fora dividido entre uma minoria que se aperta para pagar ingressos caros ou fantasias idem e uma maioria que se espreme para assistir as escolas na concentração – daquelas aconchegantes arquibancadas com vista para o valão da Presidente Vargas. Candeia e Isnard já escreveram – e isso, há décadas -Escola de samba: Árvore que esqueceu sua raiz. Como dizem, poder demais corrompe. Por isso que eu prefiro – ainda – o carnaval de rua. Mas, sobre isso eu falo outra hora. Por hoje é só pessoal.

Axé!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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