O não-samba é pop

Pop é a designação de quem não tem um estilo definido e – desculpe o trocadilho – se tornou popular com Michael Jackson. Mas percebam a diferença entre difundir um novo estilo próprio e copiar o modelo de sucesso achando que o verdadeiro motivo foi o resultado e não o artista que o desenvolveu. O pop se tornou esse atrativo comercial porque saudoso Jackson fez aquilo de coração e talento. Amor à arte. Logo, voltemos ao Brasil e ao samba para concluirmos que quando se tem respeito pelo seu próprio talento, cultura e arte, até o que é chamado de pop se torna um trabalho rentável e ainda autêntico.

O não-samba é aquele que surge pelas rádios que até tocam samba, mas são produtinhos feitos para vender, agradar e nunca mais serem lembrados depois um pouco de tempo. O engraçado é que praticamente todos os elementos desta trozoba são elementos de samba diluídos. Explico: Os instrumentos característicos estão lá, mas você não ouve a ênfase de um banjo com palhetadas repicadas e serelepes, não tem a virada de um repique chamando os outros instrumentos depois de uma paradinha esperta, enfim, NÃO TEM! Os instrumentos estão lá, será que eles não sabem tocar direito? Duvido muito.Isso me faz lembrar que artistas não precisam mostrar no que são bons desde que o que mostrem seja bom e rentável. Basta ver a quantidade de gente que curte um rock n’ roll e faz sucesso como pagodeiros, forrozeiros, etc, mas aí, já estou divagando.

Depois que a aparência instrumental te ilude, as vestimentas são outro achado. Tudo combinando em cores, modelos, etc. Mas a música já não é – nem de longe – o que se firmou como estilo do samba. Enquanto cultura popular, o samba agregou nuances da cultura afro e diversas outras da vida urbana. Sendo assim, do mesmo jeito que um cantor de heavy metal tem afinidade com assuntos religiosamente transgressores, medievais ou só de gandaias envolvendo motos, mulheres e bebidas (o famoso “sex, drugs and rock n’ roll) o sambista sempre teve propriedade de falar do dia-a-dia, das festas (pagodes, veja bem) que costuma ir, ou seja, de suas próprias historinhas da vida. Crônicas, jogos de palavras, às vezes, só uma reflexão sobre o que é o samba, o amor, e muito mais. Não que os assuntos não possam variar, mas existe uma máxima popular que se diz “tudo é questão do jeito que se faz”.

As letras não precisam ter um só tipo de conteúdo, mas é notória a maneira como isso é banalizado em prol da comercialização. Pô, até parece que não se pode mais fazer boa música para a arte assim como para a indústria fonográfica! Se, para vender, fosse necessário somente seguir a detestável fórmula batida de rimas óbvias, bobas e clichês, Jorge Aragão e suas reflexões acerca de sentimentos e relacionamentos nunca venderiam. Zeca Pagodinho não teria passado do primeiro disco com crônicas do dia-a-dia ou o Fundo de Quintal não teria revelado tantos talentos se esse tipo de trabalho não fosse cultural e financeiramente atrativo para todos os lados.

Comercialização musical desenfreada faz tudo parecer mais do mesmo.

Pode parecer que, pelo que sempre friso – além do nome deste blog – eu seja contra este ou aquele artista só porque não segue a raiz, fazendo uma linha pop. Até sou sim! Mas, uma questão de gosto, de opinião, pois, tud

o que leva o “prefixo pop” tende a servir para aqueles shows em praça pública, praias ou réveillons, mas que não duram nem até a ressaca por serem tão banais. Do mesmo jeito que bandas emo/coloridas não são rock por tocarem guitarra, o “pagode” não é samba porque tem pandeiro. Na verdade, alguns dos representantes dessa nova raça mutante espécie de subgênero musical nem tem instrumentos de samba. É tudo pop.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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