Não entendi o enredo desse samba…

Samba é a mais autêntica manifestação popular. É só pensar no carnaval como a festa do povo, ou melhor, como a festa que, de tão democrática, pode ser – e é – apreciada por todas as classes sociais. Deixemos de lado aquele clichê de que, por ser a festa da carne, a coisa descambou para a putaria pegação desenfreada (todos os tipos de festas e shows sofrem dessa praga). Vejamos a festa como uma manifestação das classes sociais que não têm condições de pagar algumas centenas de reais para seguir artistas famosos em outro estado pelas ruas, ou mesmo no sambódromo, passarela dos carnavalescos samba. Blocos de rua, por exemplo, eram aquelas turmas que se reuniam para fazer uma brincadeira pelas ruas da vizinhança. Quem curte a alegria do carnaval sabe o caminho e vai brincar. Foliões, no melhor sentido da palavra. Muitos ainda mantêm esse espírito. Mas, muitos desses blocos já se tornaram, não de hoje, pontos de encontro para aqueles que só querem encher a cara e causar algazarra. E espantam muitos verdadeiros foliões.

O próprio sambódromo já não é a passarela do samba. Aliás, o samba virou um pano de fundo, um coadjuvante, um espectador de luxo do carnaval de escolas de samba. Claro, virou um chamariz para o sucesso. Quem não quer faturar uma bolada vencendo no promissor negócio das escolhas de samba? Mas, e as melodias características de cada escola, de cada ala de compositores? Tem ainda? Antes, conhecíamos a figura do mestre DA bateria, hoje, mestre DE bateria. Sabe a diferença? Puxadores/intérpretes, rainhas de bateria, destaques, passistas e mais alguns outros cargos dentro da escola, simplesmente são contratados como jogadores de futebol. Ou seja, na próxima temporada vai para onde pagar mais e vai beijar o pavilhão da próxima agremiação para a qual prestará serviços. Existem raras exceções hoje em dia, mas ninguém mais liga para isso. Ficou normal, assim como as alas, que tinham funções e particularidades de uma turma que fazia parte da escola e desfilava. Hoje, com a super-aceleração do andamento e as rasas melodias dos sambas de enredo, as alas são parte das alegorias, que viraram só motivos de narrativa e identidade visual do enredo da escola. Tem alegoria que se move mais espontaneamente do que algumas alas por causa da automatização dos desfiles.

Do mesmo jeito que acontece com os grupos de pagode mela-cueca românticos, as escolas de samba surgiram porque tinham algum diferencial. Seja por uma marcação característica da bateria, um gesto ou alegoria próprios, instrumento específico, enfim, deu pra entender, né? Mas, igualmente foi a sina desses dois “segmentos de samba”: HOMOGENEIZAÇÃO. É um tal de “o que deu certo ali, a gente faz igual ano que vem”, que todo mundo tem as mesmas características.  Um círculo vicioso que deixa um eterno empate entre quem compete. Sempre as mesmas escolas disputam títulos e sempre as mesmas escolas brigam para não cair. Ainda insisto que deveria ter um quesito “empolgação popular” e um “empolgação dos componentes”. Desfile técnico é papo de carnaval do Copacabana Palace. Estamos falando de festa do povo! Mas, se o povo não faz, não produz e tem de pagar para entrar… Que festa do povo é o carnaval fechado do sambódromo? Você pode pagar um camarote de cervejaria? (Até patrocínio de reformas para os próximos carnavais a influência externa promove). Gente demais de fora veio dar pitaco, e gente que era de fora, mas já estava dentro há um tempo, permitiu os pitacos de quem entende de farejar dinheiro e não de cultura. Carnaval para Inglês ver. Aliás, Inglês, Estadunidense, Australiano, Espanhol e toda a infinidade de turistas que nos visita todo ano.

Samba deveria continuar como atitude do povo que representa o povo e volta para ele como entretenimento e identidade cultural. Mesmo a visão comercial do samba pode ser aproveitada vendendo o conceito de cultura para atrair os admiradores do gênero. Mas, o que se faz é uma banalização dos termos e ações a ponto de “micaretizar” uma autêntica manifestação popular (Mais à frente eu falo mais sobre essa última frase). Quando as escolas se submetem aos patrocinadores, vendem sua criatividade. São agências de publicidade. Eles encaixam expressões e frases de efeito das marcas patrocinadoras como se fossem jingles. Candeia já alertava para esse mal há mais de 30 anos. E se o patrocínio fosse tão importante assim, nenhuma escola tinha formado sua tradição no início do século passado, por exemplo. É que o dinheiro, às vezes, parece droga, deixa as percepções das pessoas mais amenas para o que é desvirtuado só pra continuarem dependentes das boas sensações que provoca.

Já foi o tempo em que o carnaval era simples e divertido como historinhas de Maurício de Souza. Hoje é Tecnologia HD, Photoshop e pouco conteúdo.

 

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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