A luz de Candeia

Candeia defendia que o samba é cultura do povo, feita pelo povo e que voltava para o povo "sem poluição".

Antônio Candeia Filho é uma das figuras mais respeitadas no meio do samba. A música brasileira foi muito enriquecida e a cultura afro-brasileira ganhou um ponto de vista de quem entende como as transformações não são necessariamente evoluções.

Nascido no meio do samba, Candeia acostumou-se a ter diversas festas e reuniões musicais em sua casa, sob o comando de seu pai, tipógrafo e músico que juntava uma turma para fazer música. Sob essa influência, Candeia aprendeu a tocar violão e cavaquinho, começou a freqüentar rodas de capoeira e terreiros de candomblé. Ou seja, o homem teve mais do que experiência em cultura negra para, mais tarde, se tornar um de seus maiores representantes e defensores.

Já no meio do samba – mais especificamente na Portela – Candeia se tornou um compositor diferenciado, cito o samba-enredo Seis Datas Magnas, em que ele contribuiu para que a Portela conquistasse o inédito feito de ganhar nota máxima em todos os quesitos. E, no início dos anos de 1960, comandou o conjunto Mensageiros do Samba (onde começou a carreira de um tal menino Arlindo Cruz).

A carreira – e porque não dizer a vida, no geral – de Candeia teve dois momentos distintos. O início como sambista, por convicção e herança, aflorou o artista, mas o que viria depois aguçou a veia de militante cultural. Isso porque, antes de mais nada, é preciso citar o ingresso de Candeia na polícia, que lhe trouxe fama de truculento, ressentimentos entre seus companheiros de samba e a tragédia que mudaria sua vida. Ao se envolver numa briga de trânsito (há quem diga que era uma perseguição), Candeia foi baleado na coluna e ficou paralisado da cintura para baixo. Dizem que isso ocorreu logo após uma noite em que uma prostituta teria praguejado contra ele por levar uns tabefes, mas isso é só uma curiosidade.

Depois de um período recluso por depressão, Candeia retornou à ativa e pode se dedicar em tempo integral ao samba. Ali, nessa nova fase, ele fundou, em 1975, a escola de samba Quilombo. Ele era contra a descaracterização das escolas de samba, principalmente, da Portela, sua escola de coração. Chegou a escrever uma carta à presidência da Portela à época sugerindo mudanças que garantiam uma autenticidade e respeito à cultura representada pelas escolas de samba. Não foi sequer respondido.

Candeia criou a Quilombo como resistência à comercialização das escolas de samba - já na década de 1970.

Em 1978, ano de sua morte, Candeia teve publicado seu livro – em parceria com o jornalista Isnard Araújo – “Escola de Samba: Árvore Que Esqueceu a Raiz”, livro, cujo título e ideologia inspiraram este blog a sair do projeto e cair no samba, diga-se. Aliás, Candeia foi militante em tantas frentes pela cultura negra, brasileira e popular, no geral, que a escolha do nome dele não foi à toa para ser o primeiro homenageado nesta seção biográfica. Claro, a proposta não é um aprofundamento na vida e obra do artista, mas serve para mostrar as motivações e afinações de quem figurar aqui como representante do samba na sua forma artesanal, cultural e pulsante. Mas existem lugares onde se pode pesquisar mais detalhadamente sobre vida e obra do carismático e comprometido líder negro Antônio Candeia Filho. Como aqui e aqui.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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