Mestre-Sala e Porta-Bandeira: A corte se anuncia

A corte se apresenta e lhe convida a assistir à festa.

A festa é bonita e cada componente, cada ala tem seu papel definido para que o organismo funcione em harmonia e em acordo com a alegria e disciplina dos componentes, agora, fazendo as vezes de engrenagens bem azeitadas. Neste contexto, Mestre-Sala e Porta-Bandeira vê fazer a corte e anunciar o pavilhão que se apresenta.

Como é lindo de se ver o casal, aliás, os casais mais elegantes dos desfiles de escolas de samba. É um tal de Mestre-Sala rodopiando por ali que até parece que o camarada consegue flutuar, tamanha a leveza, ao passo que a Porta-Bandeira vem majestosa e imponente como quem dança ao vento sem nem parecer que trás consigo um peso duplamente classificado. Afinal, ela desfila com quilos e quilos de fantasia sem perder a leveza de movimentos, e ainda tem o peso simbólico de carregar o pavilhão da escola sem deixar que ele caia ou enrole.

Tudo começou com a corte portuguesa, que trouxe para cá seus costumes em todos os sentidos. Conta-se que, durante as festas nas casas grandes (sedes das fazendas), escravos observavam o modo como se dançava e imitavam de forma irreverente em suas próprias festas nas senzalas (os pagodes em seus primórdios). Dessa mistureba, saiu o jeito de se dançar leve e alegre, mas sem perder o caráter solene. Ou seja, não importa se é com a pompa dos nobres europeus ou durante um desfile de carnaval, a razão de ser do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira é a cerimônia que representam.

O Mestre-Sala recebe esse nome por que é o mestre de cerimônia. Ele é o responsável pela “sala”, ou seja, o entretenimento da plateia (ainda procuro saber – ou confirmar – se o termo “fazer sala” vem daí) e a Porta-Bandeira é a companheira dele. Ela trás a bandeira que apresenta a agremiação e deve fazer com que o objeto – e ela mesma – bailem sublimes e sejam apresentados para os que assistem – e os que julgam. O Mestre-Sala precisa fazer reverência e proteger aquela que porta a bandeira, enquanto esta faz sua evolução como que embalando o nome da escola. É muito importante que não deem as costas um para o outro. Isso pega mal e custa pontos.

Muitos são os simbolismos que envolvem diversos níveis e camadas de tradições no carnaval, mas esse casal é o que – na minha opinião – sintetiza mais perfeitamente o paradoxo do carnaval enquanto festa popular e – ao mesmo tempo – uma solenidade. Afinal: Carnaval =  carne Valle = do latim: a carne vai, ou seja, é o período de não consumo de carne em respeito à quaresma. Sim, a tradição começou de um rito religioso, mas falo disso uma outra hora.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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