Samba e a propaganda

Quando a identidade da escola dá lugar a uma marca, ela vira apenas veículo publicitário.

A Porto da Pedra vai falar em 2012 sobre Leite. Sim, carnaval sobre leite. Uma grande fabricante de produtos a base de leite é patrocinadora. Já viu a conclusão lógica, né?

 

Pois é, quando eu era um pequeno infante, fazia piadas e achava que era só uma infeliz – e sarcasticamente engraçada – coincidência quando um escola fazia um carnaval sobre algum tema, digamos, comum demais – pra não dizer esdrúxulo – e acabava mal na classificação. Sem falar nos rebaixamentos. Era um tal de escola homenageando gente do nada, sem ligação com a festa, assuntos que não são interessantes nem na lábia dos camelôs mais engraçados das ruas e transportes coletivos e um sem número de verdadeiras campanhas institucionais. Quando, recentemente, ouvi um samba da Grande Rio (chamada por alguns de Unidos do Projac, pela quantidade de celebridades e “padrinhos”), que falava claramente um bordão de uma marca famosa de cerveja (e dona de um dos camarotes mais visados do sambódromo carioca), simplesmente achei engraçado.

 

A escola passa a ser uma vitrine. Uma campanha bem longa de publicidade das marcas. Mas, e o carnaval? A prefeitura já não investe bastante no circuito turístico para que a cultura seja mostrada aos gringos e brasileiros de outros estados? Volto àquela minha comparação: Patrocínio e pasteurização do carnaval aqui é como pizza de morango no microondas na Itália ou comer arroz com feijão no restaurante japonês. Pombas, esse modelo publicitário de mesclar o produto à identidade do veículo fica engraçadinho no CQC, mas o anunciante não pode dominar a cena. Dinehri é muito bom, mas não exibe cultura. Dinheiro é dinheiro em qualquer lugar, mas samba só é samba no Brasil. Vamos nos preocupar mais com a arte, pois a arte vende muito bem quando tratada com carinho. Quem entende e admira, vai procurar o produto. Não precisa diluir  e banalizar o que o povo tem de melhor em troca de uma sacola de dinheiro.

 

A cultura popular do samba e do carnaval está sendo preterida ao ponto de pensarmos se demora pra ficarmos como na Bahia, onde a grana necessária para curtir o circuito carnavalesco é demais para o povo e só quem tem muita grana – ou economizou uma vida – consegue aproveitar. E nem é mais uma festa do povo.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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