Samba Que Não É $amba

Dá pra notar a postura marketeira?

Depois que a galera do Cacique de Ramos – encabeçados pelo Fundo de Quintal – trouxe uma nova dinâmica ao samba, ocorreram dois fenômenos paralelos e interligados: A popularização do termo “pagode”, até então significando uma modalidade de festa, virou sinônimo de festa de samba, e, logo, significado de um sub-gênero da matriz samba. Passamos a ter o samba e o pagode como estilos distintos. O chamado pagode seguiu pela linha comercial e, consequentemente, saiu dos quintais e terreiros para, exclusivamente, os estúdios e mesas do pessoal de marketing. O que era arte e, por isso, vendia, se tornou produto já feito só pra vender.

O Exaltasamba, dos principais nomes daquela geração, sempre teve a tônica “paulista” do romantismo em detrimento do cotidiano, mas era mais um estilo do que, propriamente, um desvio do foco no samba. Inegavelmente era um dos grupos que pegaram carona na correnteza forte que era explosão do “pagode”. Comercializado à vera, mas, eles, pelo menos, tinham um estilo sincero. E, até pela autenticidade – rara na maioria – acabei aprendendo a gostar de muita coisa do grupo durante a década de 1990.

Sempre achei o Chrigor um apático, no tom de voz, mas ainda achava ele mais “encaixado” (UIA!) no contexto do Exaltasamba do que o Thiaguinho (mesmo com o cabelo descolorido, modinha irritante da época). Nada contra, até acho que o vocalista atual é mais cantor, mais “showman” e tals. Mesmo assim, tenho mais a impressão de que o grupo o agregou numa condição comercial, para se manter “jovem” e “na crista da onda” (mesmo que essa última expressão não seja jovem há tempos ;p). Um garoto propaganda para o grupo não sair de linha. Na minha decrépita opinião, uma megalomania de querer estar em todas, gravando R&B, pseudo-sertanejo, parcerias com astros do momento e mais o que vier pra dominar o mundo midiático.

Anos de 1990 eram toscos nas vestimentas, mas dava uma noção de unidade maior... pra mim, pelo menos.

Conseguiram e foram alçados ao status de popstars. Mas, notem, mesmo assim, não se conhece o grupo como baluartes do samba. Numa roda de samba, no máximo, você ouve músicas antigas deles. Não o “lelele”, não o “lalala”, nem os trocadilhos com palavras de baixo calão. Essa temática de conflitos sentimentais adolescentes foram a ruína do que se convencionou chamar “pagode romântico”, mas sempre tem público, porque é diversão imediata, no dia seguinte, ninguém lembra o que tocou durante a “balada” e vida que segue.

Divagação rápida ON

Não se sabe mesmo em que categoria estaria aquela geração fim dos 1980/1990 – da qual o Exalta fez parte – já que eles eram “o som da garotada” de um passado recente, até que o chamado samba de raiz teve uma retomada midiática mais forte de uns anos pra cá. Tantos desapareceram e/ou foram esquecidos no minuto em que deixaram a superexposição da mídia.

Divagação rápida OFF

Aí vem isso: Thiaguinho diz que mudou “um pouco” a história do samba.  Acho que ele confundiu cópia de um modelo que vendeu bem com influência estilística. Muitos o copiam, mas copiariam um boneco de pano se estivesse no lugar dele. Enfim, desde que o ex-fama foi alçado ao sucesso pelo grupo, fiquei com a impressão de que o vocalista se tornou um tipo de chamariz comercial e que o restante passou a ser a banda de apoio do mesmo.

Agora, mudar a história, não se muda, já que o que aconteceu ficou no passado e o que ainda não aconteceu… bem, ainda não aconteceu pra se mudar. Ser relevante para a história – acho que foi o que o rapaz quis dizer – não. Todo o destaque que ele tem na mídia, o tipo de público que alcança e o tipo de veículos que o promovem… Sejamos sinceros, não é samba. É música “pop” só que com o pano de fundo de um grupo de samba voltado pro alcance de público, entretenimento imediato e retorno financeiro. É pop com pandeiro. Popgode. Como poderia ser sertanejo, forró ou qualquer coisa que nem segue a métrica ou estrutura harmônica do samba. Sem falar o fundo cultural. O Cacoete pra se fazer samba.

Polêmicas à parte, Donga fez história ao transformar versos de improviso e refrões de domínio público em uma canção sob a denominação de samba. Gravou e fez o samba – até então, “apenas” uma vertente da representação dos costumes dos negros – ser um gênero musical. A turma do Estácio deu ao samba uma nova dinâmica e possibilitou o desfile com uma estrutura usada até hoje. Fizeram história no samba de desfile.

Noel, Wilson Batista, Cartola e Geraldo Pereira mostraram como ficava bonito se cantar samba e declamar as crônicas do cotidiano com poesia. Moreira da Silva representou a figura do Malandro que vivia da própria malandragem sem deixar de ser representante do povo e não se submetendo à perseguição e censura do governo e o preconceito da sociedade.

Candeia fez sambas de temáticas sociais, de resgate da auto-estima do negro e do pobre, do povo. Fundou uma escola de samba pra não desfilar e revalorizar o sambista dentro da escola de samba. A escola nem tinha intenção de desfilar. Só de ser. Martinho deu forma ao partido alto, sem ele – considerando que outros poderiam ter feito diferente, ou (Deus me livre) nem fazer – o samba não teria chegado à comercialização – enquanto arte, ainda. A turma do Cacique deu uma nova forma de se tocar, novos velhos instrumentos adaptados. Foi a última vez que algum núcleo realmente contribuiu para a história do samba. Depois disso, fora os fenômenos de venda, não há acréscimo para o samba, e sim, para as estatísticas do mercado fonográfico.

É como se o jogador Neymar dissesse que mudou os rumos do futebol ou o Capital Inicial se auto-proclamasse revolucionários do rock n’ roll, pelo apego da garotada de hoje… Samba – assim como futebol e outras milongas mais – não se muda assim, da noite pro dia, por uma dúzia de DVDs gravados ou presença massiva na TV e no rádio. Nem por uma temporada (beeem longa) de encerramento de atividades. Respeitar o samba é respeitar a história da própria cultura brasileira. Samba é ancestralidade, diversão e muito mais. Tudo levou muito tempo pra chegar ao que é hoje. E tudo começou com muita humildade.

A campanha massiva do marketing aos "ídolos" do momento acaba enganando o grande público que aceita sem analisar a relevância dos mesmos.

Alô, crioulos do meu Brasil, samba é raiz, é coração. Não é fazer coraçãozinho com a mão. Não ao “éssedois”! O que é “éssedois”? S2 (Agora dorme com essa na consciência! Rá!)

No mais, Deus perdoe os que não sabem o que falam. ;p

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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