Malandro e o Samba

Primeiramente, há que se diferenciar imediatamente o malandro carioca, do samba, do malandro da umbanda. Claro que em algum momento os dois se esbarram e até se confundem, mas a figura mitológica e carismática a que me refiro – a despeito da representação da figura acima – é aquele cara que tinha tudo pra ser só um vagabundo, mas se tornou um verdadeiro porta-voz do samba na sociedade.

A ambivalência certamente é o ponto principal de admiração do sambista pelo malandro. Ele age de forma que todos gostariam, mas não podem fazer.

 

Primeiramente, há que se diferenciar imediatamente o malandro carioca, do samba, do malandro da umbanda. Claro que em algum momento os dois se esbarram e até se confundem, mas a figura mitológica e carismática a que me refiro – a despeito da representação da figura acima – é aquele cara que tinha tudo pra ser só um vagabundo, mas se tornou um verdadeiro porta-voz do samba na sociedade.

É verdade que a figura do malandro não é bem vista por muitos até hoje, mas isso é resquício de um preconceito muito mais antigo que vem dos tempos da escravidão. Com o fim da república velha – que veio logo em seguida à “abolição”, a maioria dos negros ficou sem uma “função” na sociedade, já que os empregos e tudo mais era feito para brancos com condições financeiras. Assim, muitos mudaram-se para centros urbanos onde teriam mais chances de trabalho. Esse grande movimento aconteceu, essencialmente, do nordeste para o Rio de Janeiro.

Chegando ao Rio, foram ocupando moradias e tentando sua sobrevivência enquanto o governo passava – e fazia o país passar por mudanças grandes. A principal foi a política de urbanização do prefeito Pereira Passos (aquele que tem um busto em frente à igreja da Candelária). Sua política consistia em garantir avanços para o rio de Janeiro. Avanço não combina com retrocesso. Então, o prefeito e seu pessoal resolveram praticar o que se chamou “bota abaixo” estirpando do centro urbano tudo o que poderia ser considerado atraso para a sociedade. Quer representação maior de atraso numa recém-proclamada república do que negros esfregando sua pele escura nas fuças de uma sociedade que acabara de “libertar” seus escravos em massa?

Pois é, assim tinha aquele pessoal que foi varrido se instalou na região central do Rio de Janeiro conhecida como Pequena África. Aquele pedaço que se estendia do cais do porto à Praça XI. O nome da região representava – na visão disseminada por Heitor dos Prazeres – o núcleo de concentração de manifestações da cultura negra. E realmente o era, já que muita gente com a base de cultura em comum, só poderia criar um nicho de revalorização de seus costumes.

Resumindo a história de forma grosseira, isso ainda incomodava as autoridades e a repressão às manifestações da cultura negra era sempre presente. Depois eu entro em mais detalhes dependendo do enfoque para não me estender ainda mais, mas a figura do malandro – dado todo esse contexto – se mostrou eficaz ao deixar de lado a ideia de que era preciso trabalhar para pensar algo como “meus ancestrais penaram na escravidão e agora trabalham pra continuarem pobres? Eu vou é andar por aí do jeito que eu quiser”.

E essa “anarquia” é o ponto principal do carisma do malandro. Não se tem notícia de alguém que tenha sido assim, sem trabalho e vivendo apenas de samba e poesia, mas todos enalteciam essa figura porque ela podia ir a outros níveis da sociedade e mostrar a alegria do sambista, coisa que o proletariado não fazia. Talvez, no carnaval, mas é um espaço de tempo muito pequeno em se comparando ao alcance da voz do povo através do malandro o ano todo.

Enfim, terno pra mostrar elegância, mas folgado pra possibilitar movimentos mais livres, principalmente se rolasse uma capoeira, linguagem cínica, mas sempre expressando o verdadeiro pensamento… O malandro acabou por ser aquilo que o povo queria ser, mas não podia, logo, projetava seus anseios no malandro enquanto se refugiavam nos morros pra sentirem que tinham seu próprio local reservado pra ser quem gostariam.

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Falando Nisso..., Papo Malandro e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s