Samba = Pagode (Só que não)

Samba é igual a pagode, só que não, mas também não é muito pelo contrário. Eu já disse, nos primórdios deste blog, que tanto samba quanto pagode são termos que surgiram de confraternizações sociais rurais, mas que, pela frequência de um determinado gênero, em um determinado contexto social, o nome do tipo de festa acaba “apelidando” a música ali tocada.

Tantinho e Candeia. A arte do Partido Alto que Tantinho leva até hoje e dá aula.

Explico: Noel Rosa cantou “com que roupa eu vou pro samba que você me convidou” (Com que roupa). Ele está falando de uma festa – descaradamente explícito o que vai ser tocado, cantado e dançado por lá, né?). Naquela época, idos de anos 1920/1930 o samba ainda engatinhava enquanto gênero musical, mas as festas de “semba” (umbigada) já aconteciam desde as senzalas. Ou seja, semba deu origem à corruptela “samba” e as rodas de partido alto – tão famosas na casa da Tia Ciata – ganharam mais uma denominação. Pagode é um termo usado pelos antigos porque era a mesma coisa que samba. Como disse Zeca Pagodinho, em entrevista a Jô Soares, no finado Jô Soares Onze e Meia (24/07/1995), ele (não) explicou perfeitamente: “É a mesma coisa, mas é diferente”.

 

Seguindo as denominações mercadológicas, vou tentar explicar mais uma vez, por que nunca é demais. Samba virou um gênero musical a partir de elementos de cultura negra, europeia e até legitimamente brasileira, entre outros. Pagode era outro termo usado pra denominar festas musicadas, com bebidas e comidas. Por aproximação, de finais de 1970 para 1980, o grupo Fundo de Quintal popularizou seu próprio estilo de fazer samba. As referências aos antigos estavam em tudo, letras, melodias, citações, etc. Mas, acima de tudo, popularizou o termo pagode especificando se tratar de festas de samba, as famosas rodas de partido alto do Cacique de Ramos, Cascadura, Osvaldo Cruz, etc.

 

Para o povo que já era familiarizado com o assunto, chamar uma festa de samba, pagode, partido alto ou brincadeira com biricuticos, tanto faz, todo mundo se entende. Mas, o grande público começou a prestar atenção só com aquela efervescência que Martinho da Vila, por exemplo, começou a trazer para as rádios, aquela vertente do samba mais solto, mais descontraído. Então, passamos a ter pessoas que mal sabiam o que era um banjo (“o que parece pandeiro com um cabo” eu ouço até hoje) querendo conhecer aquela onda do momento. Logo depois, viriam a despontar gente como Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, Pedrinho da Flor, etc. O samba ganhou todo espaço livre no país. E, como a forma do Fundo de Quintal de tocar virou referência, quase todo mundo fez uso obrigatório de banjo, repique de mão e tantã (mesmo que imperceptíveis no som gravado).

Quem popularizou o termo pagode para as gerações mais novas, é hoje chamado de samba de raiz. Mas era tudo a mesma ideia… até confundirem com o pop.

Essa forma virou fÔrma (eu sei que o acordo ortográfico aboliu o acento, mas é só pra enfatizar), logo, os espertalhões da indústria fonográfica acharam de dizer que aquilo era um novo gênero, quando seria mais lógico chamar de estilo. Aí, quando surgiram os grupos mais românticos e, em seguida, os mela-cuecas declarados (década de 1990), a distância daquela sonoridade “americanizada” já estava tão pasteurizada, que era mais fácil dizer que aquela turma nasceu das boy bands do que de grupos de pagode. Mas o mercado forçou até o povo aceitar.

Se o cara tem ‘Pagodinho” no nome, querem convencer que ele não faz pagode? Ah, vá…

Quer ver uma ironia que ilustra bem o que eu tô dizendo? Exaltasamba é assumidamente pop(agode) e Zeca Pagodinho é aclamado como unanimidade no gosto popular por seu samba de raiz.  Ma, cuma?! O que tem samba no nome faz pagode e o que tem pagode faz samba? (aliás esse trocadilho de nomes terminados em ‘ção’ emendarem com ‘samba’ é usado até hoje, pelamor!). É exatamente isso que eu quero dizer, pra validar a música pop de pandeiro como um segmento direto, “promoveram” a geração ‘pagode’ a samba de raiz. Mas se você bate um papo com eles, vai saber que existia gente antes disso que já usava a terminologia do pagode, como Candeia, que cantou, entre outras, “(…) se eu pegar na viola, meu bem, o pagode continua (…) ” (Vai pro lado de lá), sem falar na canção O Pagode “Não se pode ficar sem entrar no pagode”.

 

Enfim, quem sai por aí afirmando que samba e pagode são a mesma coisa, até pode ter sua razão genericamente abrangente, o problema é  que essas afirmações vêm por generalizações de quem não conhece ou só quer meter seu produtinho no meio do assunto pra aumentar seu público. Jogada do pessoal do marketing das gravadoras e rádios. Talvez falte paciência a quem entende, já que alcança massivamente o público é pra quem pode, e quem pode não quer gosto musical, quer gosto comercial. Hoje está muito fácil dizer que vai num pagode, numa feijoada, numa roda de samba, mas pessoas nem sabem o que significa a expressão versar, por exemplo.

 

Nelson Sargento, autor do hino Agoniza, mas não morre fica preocupado com essa invasão de sertanejos, eletrônicos e hip hops no que se diz samba hoje em dia, pois, segundo o mesmo, não há muita renovação da autêntica raiz. E o mercado, amigo, vai passar por cima de tudo sem olhar pra trás. Se deixarem, o samba dança, eles pegam outra música de apelo popular pra invadir, modificar e vender até acabar o mundo. Ad finem temporum.

O mestre fala que o samba precisa de renovação. Grandes vendas salvam o bolso, não a cultura.

Sargento disse (em matéria que você vê completa aqui): “Dizer que o samba está bem porque o Zeca vende 1 milhão de cópias não é correto. Depois de tanto tempo o samba está sendo tombado“, com a autoridade de quem teve a suprema sensibilidade pra explicar a trajetória do Samba em algumas estrofes e sua realidade de resistência e luta. Não deixe o samba morrer, porque não há arma apontando, mas não tá tendo quem o alimente.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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