A Moda É o Mela Cueca?

Na Pedra do Sal, não se cobra pra entrar e você consome onde quiser. Sucessos do Samba tradição e a juventude – inclusive gringa – não reclama.

Recentemente me deparei com debates constantes sobre um assunto que sempre me dá inquietação: Fazer o som da moda pra agradar a massa. Digo logo, não concordo. Primeiro de tudo, vamos avaliar essa pseudo-necessidade de se perpetuar esse pop pandeiro pelos dois meses que ele dura. Existem alguns fatores que serão analisados neste ensaio sobre arte e seus derivados comercialmente deturpados. São eles: O samba na sua forma artística; a necessidade de se fazer dinheiro numa sociedade capitalista e a produção de artigos supérfluos de consumo imediato. Basicamente.

 

Renascença Clube. Vi jovens me perguntando qual ônibus passava ali. Não perguntaram como chegar ao hedonismo musical.

O Samba na sua forma artística é aquele que não se faz mais. Partido Alto todo no improviso com refrão fácil criado ali na hora e embalando festas dias afora. Não, não tem mais. Donga gravou um desses e moveu, de certa forma, o Samba da casa de Tia Ciata para uma pratelheira de loja de discos. O Samba passou a ser gênero musical, pois estava registrado e não mais passado apenas de geração para geração. Martinho veio e remodelou o estilo até o Partido ter uma historinha de início, meio e fim, com um refrão definido. Pronto, já era possível chegar num pagode sabendo a letra do que ia ser cantado. O gênero popular ganhou grande público e grande perigo à sua “pureza”, pois, fora dos quintais, morros e favelas, o Samba estava vulnerável a todo tipo de relação com o mundo. A arte popular do nosso chão estava sujeita ao que viesse. E veio.

 

DNA do Samba. Jovens e que trazem a arte do samba tradicional, sem poluição, como diria Candeia.

O Fundo de Quintal, ainda na década de 1980, adaptou seu samba duro de quintal a instrumentos não muito comuns dentro do ‘pagode’, como teclados, bateria, contra-baixo, e essas bossas. Fez escola e trocentos seguiram o filão. Ignoraram a máxima de Jorge Aragão de que nem tudo que é bom vem de fora. Meteram as caras no pop do início de 1990 (boys bands pipocando por aí) com pandeiros pra disfarçar de pagode. O resultado? Teclados falando mais alto que cavacos e baterias batucando mais que tantãs. Era um novo produto que só usava instrumentos e nomenclaturas do samba pra atrair a garotada que queria samba, mas sem ser de velho. Um samba de jovem, algo que eles vissem sendo feito pra eles e não “empurrados” por seus parentes antigos. Nasceu o “mela-cueca”. Mas chamam de pagode até hoje.

 

O mercado viu que vende e massificou isso como o supra-sumo da alegria de viver. A garotada gosta de pagode, mas não gosta de samba (devem gostar de romeu-e-julieta, mas não querem goiabada com queijo, só pode!). Querem mais é lucrar com o público em massa. não estão nem aí pro que os DJs estão tocando. Parafraseando o escritor e roteirista de quadrinhos Greg Rucka, não culpo aqueles que queiram ganhar muito dinheiro como não culpo um tubarão por comer, mas a gana por retorno financeiro e sucesso imediato sufoca o lado artístico e criativo. Aí, gera imitadores, músicas em escala industrial – esquecidas em semanas, como se passa um porre – e essa visão equivocada de que é isso que vende e nada mais.

Vou enumerar alguns exemplos de como samba de raiz tem apelo artístico sim junto ao público: Samba de Lei (na Pedra do Sal), Feira das Yabás (Madureira/Osvaldo Cruz), Grupo Quilombo (Quilombo de Irajá), João Martins, Grupo Casuarina, Grupo DNA do Samba, Gol de Placa (casa de shows na Praça Seca), Beco do Rato (entre a Lapa e a Glória), Cacique de Ramos (preciso dizer?), Renascença Clube (Andaraí), Tia Doca (Madureira) e muitos outros. Pra finalizar, resumindo essa história, todos esses eu já freqüentei e vi muito garoto novo cantando sambas do tempo que Dondon jogava no Andaraí. É preciso coragem e personalidade para ir contra a maré para encontrar com a fonte da arte mais pura que é o Samba.

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Falando Nisso... e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s