Nova Escola de Candeia

G.R.A.N.E.S. Quilombo. Escola de samba e arte negra criada por Candeia em 1975 para haver uma escola de samba que respeitasse seus princípios fundamentais enquanto escola de samba. Tanto uma escola, quanto um reduto de samba (samba, a cultura negra que envolve, obviamente, elementos brasileiros e africanos). Criada como forma de alternativa aos que amavam o Samba antes do dinheiro (numa sociedade capitalista, pode parecer heresia, mas não me enche) e desejavam valorizar a cultura face ao gigantismo das escolas de samba de lá pra cá, quando a comunidade virou uma parte da alegoria a serviço do designer (carnavalesco) e não mais a responsável pela arte.

 

Essa escola tem uma música que a reverencia, chamada Nova escola. Daí, puxei uns trechos da inspirada letra pra discorrer a respeito, pois, ali estão, em alguns versos, toda a ideologia não só da escola como do samba fundamental. Vejamos:

 

“(…) voa um poeta nas asas da imaginação.

A arte é livre e aberta à imagem do ser criador.

Samba é verdade do povo,

ninguém vai deturpar seu valor (…)”

 

Esse trecho, na minha visão, explica bem o conceito do Samba enquanto comunhão de um povo oprimido pelo racismo, pela intolerância religiosa e preconceito social e a voz em uníssono daquele pessoal, se refugiando em quintas de fundos ou morros pra cantar e dançar sobre suas vidas, dificuldades e prazer na sua arte. Nada de alterações externas. O produto que se forma da mistura da arte com influências externas pode até ser um chamariz para dinheiro e indústria fonográfica e tals, mas o que gera tudo isso tem uma raiz. Essa raiz é a pedra fundamental que faz existirem ainda rodas de samba e não só shows. Quando se preza o evento e sua significância ancestral e não só uma peça industrializada de entretenimento em massa. Não é uma moda.

 

“Canto com os pés no chão, com o coração, canta meu povo.

Meu samba é bem melhor assim, ao som deste pandeiro e do meu tamborim”.

 

Aqui, vejo uma referência nítida à situação das super escolas de samba S/A, que foram se tornando um produto industrializado e pasteurizado, homogêneo e que só impressiona os muitos fãs e turistas, pois, em nada lembra mais os desfiles em que se contava com criatividade, talento e garra para se levar uma escola de samba às ruas. O apoio do governo foi uma manobra pra se manter tudo a serviço do turismo, ou seja, foi o primeiro patrocinador (junto aos meios de comunicação) – desses que hoje em dia até incluem seus nomes nas letras de alguns sambas. Enfim, pés no chão, coração, povo, samba, pandeiro e tamborim. Todas essas palavras remetem ao samba cultural, ao prazer de pular carnaval, não alegorias caras, coisas que nem existem no Brasil pra representar enredos que em muito se distanciam do país ou da linguagem do povo que “criou” o Samba.

A escola Quilombo fica na Rua Ouseley, 810, Acari (em frente à estação Acari/Fazenda Botafogo do metrô).

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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