Cartola: O Moinho e o Mundo

Cartola foi um dos maiores artistas da música brasileira e é um dos mais conceituados, respeitados e referidos. Aquele pedreiro de pouca instrução, mas que usou de pura poesia pra se comunicar, homenagear e até criticar. Um gênio nato e um fantástico representante e defensor de nossa música.

Nascido Angenor de Oliveira, a 11 de outubro de 1908, o jovem Cartola se apresentava como Agenor, tendo percebido o N a mais em seu nome somente ao providenciar papéis para se casar. Acabou adotando de vez seu nome com o toque criativo/desatento do escrivão para evitar problemas. Até seu nome imortal e artístico veio de uma adaptação, como muitos sabem, ele era um ajudante de pedreiro muito vaidoso e usava um chapéu-coco para não sujar os cabelos na obra. Ganhou o apelido de Cartola.

Apesar de sempre ser lembrado ao se falar em carnaval, por ser membro-fundador da Estação Primeira de Mangueira – e seu presidente por muitos anos – Cartola era mais de canções e poesias de tons melancólicos e chorões (no bom sentido da palavra, no sentido de melodiosos), era um franco não adepto do Partido Alto, preferindo as dissonâncias de melodias mais elaboradas e letras mais etéreas. Isso se deve muito ao fato de ter sido um grande admirador de poetas brasileiros como Olavo Bilac e Carlos Drummond de Andrade.

 

Mesmo assim, defendeu nossa música, como, por exemplo, ao fazer parte dos eventos praticados durante a década de 1970 no Teatro Opinião, o Noitada de Samba, que visava ligar a música do asfalto à do morro. Fez-se ali um link que fomentava uma aproximação da música e dos músicos que ali freqüentavam para todos, no fim, perceberem o óbvio: Música popular brasileira é uma só, não importa de onde venha. Nada de artista ser o do asfalto e o do morro ser aquele matuto que troca sua arte por cachaça.

Foi parceiro de tantos, em destaque, cito Noel Rosa, justamente pra demonstrar como muito antes de se oficializar a resistência da música nacional em tempos de ditadura, o poeta da Vila trocou muita ideia com o poeta do morro. Companheiros de farra, samba e de vida. Cartola deixou uma herança muito importante para o povo brasileiro, que o samba podia ser cotidiano, irreverente ou poético, mas o importante era ter a visão da importância do samba e do sambista para o cenário musical brasileiro.

Nos deixou em 30 de novembro de 1980, devido a um câncer, mas, felizmente, sua obra já havia sido reconhecida e imortalizada depois de décadas relegado ao ostracismo. Cartola merece todo nosso respeito e admiração, não só por suas composições, mas por ter sido um verdadeiro defensor de nossa cultura.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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