O Discrepante Nelson Cavaquinho

Optei por usar o título de discrepante e não minha ideia inicial (Nelson Cavaquinho, Flor e Espinho) porque Nelson, nascido Nelson Antônio da Silva (Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1911), possuía algumas discrepâncias tão absurdas, que só com ele pra essas informações, a princípio, desencontradas fazerem sentido mesmo. Não comece a boiar feito vitória régia na lagoa, pois, eu explico.

 

Vamos expor só algumas curiosidades acerca do gênio? O cara ficou famoso pelo ‘sobrenome’ artístico de Cavaquinho, mas abandonou o instrumento ainda antes de aparecer para o mundo como compositor – pois achava o cavaquinho muito pequeno e trocou-o pelo violão (mantendo o jeito curioso de tocar com dois dedos, com o instrumento quase na vertical). Ou seja, é tipo Paulinho da viola que tocava cavaquinho, saca?

 

Era policial militar da cavalaria, mas vivia mais em cana que malandro de morro correndo no samba e ainda conseguiu perder o enterro da própria mãe, pois, estava na boemia por dias sem aparecer em casa e dar – ou mesmo receber – notícias. Grande compositor boêmio, que vendia suas composições por mixaria – motivo de Cartola ter abandonado a parceria com o amigo, por ter uma composição em comum vendida sem aviso. Tremendamente boêmio, só compôs, quase exclusivamente, tristezas. Lindas canções, mas só melancolia. Interessante, né? Talvez analisando de forma mais profunda, essa boemia poderia ser desafogo de mágoas do passado, e ele dava mesmo a entender que assim o era.

 

Disse Nelson: “Sou um homem que está muito perto da fatalidade. Minhas músicas, por isso, falam sempre em morte e em Deus, não faltando os amores fracassados”.

 

A velhice e possíveis problemas de saúde o fizeram ficar no miudinho a partir de uma certa idade. Mas o destino chama e todos atendemos alguma hora, não adiantou nem mudar as horas do relógio durante a madrugada por um medo inexplicável de morrer às 3 da manhã. Foi perto disso que, na madrugada do dia 18 de fevereiro de 1986, aos 74 anos, faleceu Nelson Cavaquinho, vítima de enfisema pulmonar. Hoje, completaria 111 anos, mas deixou uma obra eterna para nossa alegria.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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