Cotas: Divagação Negra

A raiz do samba é negra e é sob esse ponto de vista que vou fundamentar meu argumento. Ainda não sei se sou a favor ou contra cotas em universidades públicas, mas uma coisa é certa: Sim, é uma forma de diferenciar negros (e “pardos”, ou mestiços, como eu prefiro) dos não negros/pardos~mestiços. Aí, já começa a sacanagem, pois, somos uns 90% de mestiços de tudo quanto é nacionalidade, sobretudo negros africanos e índios. Difícil diferenciar pessoas pela cor da pele, quando praticamente todo mundo é igual, apenas com, digamos, proporções diferentes de DNA dessa ou daquela etnia.

Mas, como eu falei antes, a raiz é negra e quando os negros foram “libertos”, houve muito mais interesse político do que social. Sinal disso foi o fato de o Brasil estar sob pressão da Inglaterra para abandonar o domínio rural da cultura pra aceitar a tendência da industrialização das cidades. Os saxões já vinham nessa batida e não se interessavam mais em mão-de-obra escrava, já que máquinas faziam seu trabalho agora. Como gastar tanto dinheiro pra automatizar as fábricas e produtos e desperdiçar isso com a defasada compra e venda de seres humanos?

Voltando ao Brasil, essa pressão, aliada à pressão interna pelo estabelecimento da república, fez com que a família imperial brazuca assinasse (a contragosto, na minha opinião) a Lei Áurea (o fato de ter sido expulsa do país logo após só reforça meu argumento). O problema é que foi tudo feito por interesses que nunca visavam o negro como integrante da sociedade, prova disso foi o outro motivo que reforçou o fim da escravidão. Os abolicionistas eram mais influentes, tinha muita gente grande interessada em por uma pá de cal nessa atrocidade histórica (que eu comparo a uma forma de genocídio) e o medo dos fazendeiros das, cada vez mais freqüentes, rebeliões.

1888 veio aí e o resto é história. Será? Não! Tá rolando ainda. Talvez, só talvez, se tivessem criado algo parecido com o que tem hoje naquele tempo, as coisas fossem diferentes. Pense bem, se negros fossem reconhecidos como membros injustiçados da sociedade, em vez de meros marginais, teríamos, desde aquela época, muitos mais africanos e descendentes nas escolas, universidades e posições sociais diferentes de serviçais. A sociedade seria mais homogênea nesse sentido o que não impediria o racismo, ao contrário, mas isso fica pro próximo parágrafo.

Imagina quanto conflito e discussão haveria diretamente. Quanto do racismo brasileiro não seria exposto como uma ferida que só pode ser tratada depois de localizada e diagnosticada! Ia ter mais brigas, mas ia ser um racismo muito mais fácil de combater do que essa hipocrisia que chamamos de racismo velado. Quer ver um exemplo? Os EUAses são um país reconhecidamente separatista no geral. Negro são uma comunidade, latinos são outra e por aí vai. Mas lá, houve conflitos e até guerras pelos direitos dos negros. Isso, com certeza, reforçou o sentimento deles enquanto um povo digno, coisa que não aconteceu aqui, já que ninguém é racista, mas a sociedade não vê negros. Obra de Pereira Passos e seu “Bota Abaixo”, quando se oficializou o desejo de ‘europealizar’ o Rio de Janeiro, empurrando os negros e demais pobres da sociedade para as favelas.

Resultado: Cotas, agora são racismo, sonhamos com uma educação que ensine que o Brasil é miscigenado e discriminar um negro é discriminar a si mesmo também em algum nível

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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