Escravos da Mauá 2013 – 20 anos

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Falta um mês para o carnaval (do Rio de Janeiro, não sei como está em outras regiões), mesmo que a abertura oficial só se dê em fevereiro, quando começa janeiro, nós já temos uma forte manifestação do carnaval de rua através dos blocos que vão agitando a cidade de maneira isolada, e, em algumas ocasiões, de forma massiva, em conjunto. Na verdade, o embalo já vai se formando no final do ano anterior com as disputas mafiosas de sambas de enredo nas quadras das escolas e os ensaios técnicos no sambódromo, culminando com o Bola Preta desfilando pouco antes do réveillon. Mas, enfim, vamos ao que interessa.

  

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Este ano completam-se exatamente 20 anos desde que uma galera papo firme, funcionários do INT (Instituto Nacional de Tecnologia) se reuniu no Largo São Francisco da Prainha, na Rua Sacadura Cabral, e começou o bloco Escravos da Mauá, que percorre as proximidades da (pasmem!) Praça Mauá, Pedra do Sal e Morro da Conceição. Além dos desfiles anuais, ainda desfila em eventos diversos e, uma vez por mês, faz sua roda de samba no largo da Prainha, onde também concentra antes do desfile. A roda e os ensaios que precedem o carnaval são comandados pelo “Fabuloso Grupo Eu Canto Samba”, mas nos dias de desfile, é o trio elétrico que dá as cartas nas apresentações da azul e amarelo da Praça Mauá.

O bloco, que faz parte da SEBASTIANA (Associação dos blocos de carnaval da Zona Sul, Centro e Santa Teresa, da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro), tenta, na medida do possível, manter aquele climão inicial de camaradagem e folia descompromissada. Por isso, não adere a concursos de sambas para desfiles, ficando a cargo de sua própria comissão de compositores a elaboração do samba. Isso, pra não suscitar rivalidades. O pessoal do bloco, durante os ensaios a céu aberto, distribui papéis com a letra do samba pro pessoal já ir entrando no clima e assim ganhou popularidade e uma legião de fãs foliões, que já chega a milhares contados em dois dígitos. Perde-se um pouco do clima mais intimista, mas ganha-se em uma bela opção pra quem curte carnaval tradicional de rua.

O samba de cada ano tem por objetivo contar um pouco da história da região de onde o bloco é oriundo, locais como a Praça Mauá, o Cais do Porto, a Pedra do Sal e momentos marcantes da história, tal qual a chegada de navios negreiros, a venda de escravos e o nascimento do Samba,, pois ali faz parte da, outrora, chamada Pequena África. E o samba deste ano aborda justamente esses fatos e locais, mesclando com a alegria peculiar do carnaval, transformando eventos duros de nossa cultura e história em letras e melodias ainda mais emocionantes, dada a característica ‘inspirada em fatos reais’.

escravosdamaua3O samba deste ano – cuja letra você confere na imagem – passeia pela Pequena África, a chegada ao Cais do Valongo, uma transformação mágica que só o carnaval proporcionaria, de trazer bombardeios, mas de alegria, assim como acabar com a escravidão em nome da harmonia. Fala do cais da Imperatriz, construído para receber Teresa Cristina, esposa de D.Pedro II, a região em torno do cais, que oferecia a marinheiros e visitantes, “carinhos” das meretrizes… Enfim, lugares de importância tamanha, que se tornaram tesouros culturais do negro, que mesmo naquela situação indigna, ainda foi resistente e soube preservar sua cultura no meio de tanta desumanidade.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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