Consciência negra é todo dia

Pastor MArtin Luther King Jr e Malcolm X, ferrenhos lutadores pelos direitos civis do negro nos EUAses.

Pastor Martin Luther King Jr e Malcolm X, ferrenhos lutadores pelos direitos civis do negro nos EUAses.

Tudo começa com uma atitude estúpida em busca de se ignorar o racismo e fazer com que as pessoas conscientes sejam classificadas de paranoicas ou neuróticas. Mas, sinceramente, não sei até onde esse racismo velado é uma manobra descarada de suprimir a opiniãoe presença do negro da sociedade, tal qual vem se fazendo desde o “fim” da escravidão, ou se é só um modelo cego que a sociedade vive sem capacidade de questionar, achando que é uma lei universal da natureza. Enfim…

Lembram quando Morgan Freeman declarou que o mês da consciência negra seria algo desnecessário, pois, o dia em que nos preocuparmos com a consciência humana, aí, teremos chegado ao objetivo de viver em igualdade? Sei que a coisa foi tirada de contexto e admiro bastante o senhor Freeman pelo seu talento (por ironia, freeman, free man = homem livre), mas devo dizer que isso é mole de dizer quando se vive em um país que, apesar de toda a crítica ao capitalismo, imperialismo, fanatismo patriótico e tudo mais, passou por uma guerra civil (da Secessão, 1861-1865) justamente pelo fim da escravidão, passou por uma ferrenha luta por direitos civis e fim da segregação racial em 1963. Coisa que aqui não tem e não teve.

consciencianegraAqui no Brasil não temos a audácia de valorizar atores negros a ponto de dar a eles papéis de grandes líderes, como presidente ou mesmo Deus, como aconteceu com o senhor Freeman, não temos uma noção de unidade enquanto povo, pois nos foi enfiada na cabeça a ideia que o bonito daqui é a miscigenação, ou seja, pela cor, você é discriminado, mas se reclamar de racismo, não aceitam, porque virtualmente não existe “raça definida” (vira-latas? Eu adoro os meus). Então, voltemos à utopia de Morgan Freeman, claro que o ideal seria vivermos em harmonia, mas o ser humano não faz isso. Se só juntassem homens brancos, católicos, ricos, altos, magros com cabelos e olhos claros, por exemplo, a sociedade ainda daria um jeito de se subdividir entre inteligentes e burros, feios e bonitos, preguiçosos e agitadores, etc.

Devemos mesmo saber que somos todos iguais, mas enquanto isso não for do convencimento de todos, ainda estamos na luta por direitos na lei e por respeito no convívio social. Nada de reclamar de cabelos crespos como se fossem ruins, narizes, lábios e o físico típico do negro em geral. Olhos claros são bonitos, mas os castanhos também, assim como hábitos litúrgicos são respeitosos e respeitados seja de origem europeia ou africana. Claro que tem muito recalcado, mas chega de culpar o negro pelo recalque ou pelo racismo, chega de endeusar a família imperial por bondosamente libertar os escravos e achar um jeito de julgar Zumbi por ter “feito escravos”, vamos entender que benevolência para/com negros não demoraria 300 anos, se não tivesse interesse rolando, que num estado de fuga, numa guerra por liberdade, há que se entender os métodos de um líder responsável por milhares de vidas. Que houve muitos nomes marcantes na luta abolicionista, como Luís Gama, José do Patrocínio, José Bonifácio, Joaquim Nabuco e Rui Barbosa.

Chega de usar a imagem do juiz da moda, Joaquim Barbosa como um MorganFreemansobreaconscicianegrainvoluntário garoto-propaganda contrário às cotas em universidades públicas. Sim, ele estudou e com muito esforço chegou lá, mas a grande maioria ainda descende do resquício de abandono a que o negro foi submetido. A libertação foi tão boa que o Estado obrigava o cidadão a trabalhar, mas não deu nem condições de educação ou preparo profissional. Forçando muitos a continuarem com seus ex-donos para ter o que comer, ou ir para os biscates, subempregos, favelas, criminalidade. A violência, deste ponto de vista, é só um reflexo que a sociedade achou que não viria quando varreu a população negra para as favelas, para debaixo do tapete, como se um vazamento sumisse só de você cobrí-lo com uma toalha. Cotas são justas sim, pois são a “muleta” social que o governo não deu ao negro há 125 anos.

Como eu li num sarcástico livro didático de trabalho da 7ª série (antigo 1º grau), a festa de comemoração da abolição deve ter sido um luxo, com negros servindo e limpando a sujeira que a elite jogava se esbaldando. Como o aniversário do seu filho de 1 ano que quem curte é você. Agir como se o negro não fosse preterido na sociedade, diria Jorge Aragão em Identidade “não nos ajuda, só nos faz sofrer, nem resgata nossa identidade“, pois, depois do plano falho de embranquecer a população com o tempo, através da miscigenação, ficamos nesse meio termo, achando que não há racismo, que isso é coisa dos EUAses e sua KKK. A KKK daqui é pior, não usa capuz, te olha nos olhos e diz “deixa disso, irmão, somos todos iguais”. E muitas vezes nem sabe que está sendo racista pela omissão e falta de consciência.

Agora acompanhe o trecho onde Morgan Freeman fala sobre o mês da consciência negra:

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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