Rio de Janeiro: Cidade Lagoa

praça da bandeira

Praça da Bandeira vista de cima. Foto sem data.

O Samba é um grande instrumento de crônica do cotidiano e poucos sabem ou souberam fazer isso com o tom certo de ironia e sarcasmo como Moreira da Silva. Kid Morengueira tem sucessos absolutos com Acertei no milhar, Amigo urso, Que barbada, entre outros. Ali, Moreira falava de forma jocosa sobre o universo em que vivia e o universo que observava, como apostas em corridas de cavalos, boemia e, claro, a crítica social. Nesse contexto vem Cidade lagoa, muito atual, apesar de sua composição ser datada de 1959.

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Praça da Bandeira em janeiro de 1940. Pouco mudou, não?

Ultimamente estamos vendo que as chuvas provocam estragos de grandes proporções em pouco tempo de duração, dada a intensidade com que caem. Mas a natureza não pode ser responsabilizada, se tanto se gasta pra derrubar casas e monumentos em nom de uma copa ou de uma olimpíada, porque os moradores precisam aprender a boiar se os turistas já estão sendo tratados como reis e rainhas desse quintal? Andei pesquisando e descobri que ainda em 1811 já se faziam comissões de planejamento para lidar com o impacto das chuvas na cidade. Pelo visto, ou abandonaram o projeto, ou ele falhou brilhantemente… e foi abandonado de qualquer forma.

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Praça da Bandeira em 2010. A canção de Morengueira mais atual do que nunca.

Por mais que eu respeite a mãe natureza, não é possível que o homem tenha conseguido aterrar a cidade em regiões como Ramos, Bonsucesso e no Cais do Porto (locais que eram até onde o mar vinha) e não se consiga trabalhar o meio ambiente pra evitar trombas d’água como a que devastou parte de Xerém, por exemplo. A dica ficou há 54 anos, quando Moreira da Silva cantou que a cidade ainda é maravilhosa, mas que se arrume uma embarcação ou que se vire um bicho de pescoço comprido pra chegar em casa com alguma tranqüilidade.

Falando diretamente sobre a canção, deixando um pouco a realidade cidadelagoa-moreiradasilvapara abordarmos a questão “crônica do cotidiano”, o laço que une os dois pontos é a Praça da Bandeira. Desde que me entendo por gente a gente se queixa da região próxima ao centro da cidade que sempre alaga ao menor sinal de chuva (acho que os bairros ali já vão enchendo só de o céu escurecer de nuvens carregadas). Praça da Bandeira (também conhecida como Praça da Banheira), Tijuca, São Cristóvão e Maracanã sofrem como detalhado na canção e até agora a gente só ouve sobre intuito de derrubar o Museu do Índio ou a Escola Municipal Friedenreich. Derrubar é mole, quero ver não inundar.

Mas também é preciso que mudemos, que aprendamos que não é só futebol e carnaval pra inglês ver que levanta a moral do carioca. A gente não quer só pão e circo, queremos qualidade de vida. Não podemos ser apenas mão de obra pra manter a cidade até ela ser vendida a ricos empresários. Enquanto isso os nossos governantes (políticos e empresários) vão boiando ou de iate, nós vamos empurrando carros, vendo geladeiras navegando e móveis afundando. Precisamos de voz mais ativa, nem que seja uma denúncia em verso e prosa de forma mordaz, como Morengueira fez.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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