Zózimo Bulbul

zozimo1Morre hoje (24/01/2013), aos 75 anos, um grande representante do ativismo em defesa da cultura negra, contra o preconceito. Zózimo Bulbul, nascido Jorge da Silva em 1937, nos deixa um legado de lutas através de trabalho artístico e rompimento de barreiras em busca de respeito.

 

Curioso, a primeira vez que ouvi sobre Zózimo Bulbul, há 19 anos zozimo2aproximadamente, foi num jogo de ‘adedanha’ (quem nunca?), quando meu pai lançou esse nome na categoria de artista. Muitos em volta duvidaram da veracidade do nome, até pelo “sobrenome” diferente e, sinceramente, nem me lembro como terminou a brincadeira, pois, já era adiantada madrugada em fim de festa. Mas, qual não foi minha surpresa, anos após, já nas minhas pesquisas sobre cultura negra, quando me deparo eventualmente com a referida figura de Zózimo. Sobretudo no que diz respeito ao CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE dos anos de 1960, quando formou-se um movimento de revitalização da cultura negra e brasileira frente à efervescência da Jovem Guarda. Movimento do qual, entre outros, participaram Candeia, Cartola e Jorge Coutinho (um dos idealizadores da Noitada de Samba, do Teatro Opinião) na intenção de uma contra-cultura perante às novidades de influência estrangeira que permeava o cenário “pop” do Brasil em plena ditadura militar.

 

zozimo3Zózimo Bulbul estava lá, participando com ator nas produções teatrais do CPC e em produções importantes para o Cinema Novo sob a batuta de diretores como Leon Hirzman (que fez o documentário sobre Partido Alto, com participação de Candeia), em Cinco vezes favela (1962), Cacá Diegues (Ganga Zumba, 1963) e Glauber Rocha (Terra em transe, 1967). Em 1969, tornou-se o primeiro protagonista negro em uma novela brasileira (Vidas em conflito), fazendo par com Leila Diniz e ainda teve destaque ao fazer par com Renée de Vielmond no filme Em compasso de espera, quando interpretou um poeta com problemas existenciais por causa do preconceito do qual era vítima freqüente.

 

Como diretor e roteirista, seu mais famoso filme é Abolição (1988), que, no ano de centenário da Abolição da Escravatura no Brasil, que entrevistava negros brasileiros que descreviam sua situação mostrando que 13 de maio de 1888 não foi o fim da escravidão, pelo menos no que tange ao preconceito e discriminação. Entre outros trabalhos, como Alma no olho (1973), Dia de alforria (1980) e o curta metragem Pequena África, sobre a população alforriada da região da antiga Praça XI ao Cais do Porto, Abolição acumula prêmios em diversos festivais no mundo até hoje.

 

Todos os trabalhos de Zózimo são importantes peças na luta por zozimo4igualdade do negro na sociedade, todos têm uma visão igualitária, altiva e digna, pois, Zózimo sempre rejeitou rótulos pejorativos como o de vadio ou bandido. Na revalorização da cultura negra, fez o média-metragem Zona Carioca do Porto, além de Samba no trem e Aniceto do Império, todos emblemáticos na narração da importância do negro na formação da própria população carioca..

 

Muito importante, primeiro militante da cultura negra a levar para o cinema a temática do nosso povo, Zózimo colecionou premiações de reconhecimento à sua obra, mas sua luta não terminou. Estaremos aqui pra levar adiante e abençoados por termos exemplos tão bonitos como deixou Zózimo Bulbul. Pra sempre prestaremos reverência.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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