Paulo da Portela: Professor do Samba – PARTE 1

Paulo da PortelaPaulo da Portela foi mais que um sambista, compositor ou mesmo professor. Foi um embaixador de nossa cultura e muita coisa que conhecemos até hoje foi fundamentada ou influenciada por ele e as pessoas com quem ele conviveu. Este ano, a Portela – escola, que surpresa, fundada por ele – falará sobre os 90 anos da escola e 400 anos de Madureira. Mais do que ensejo pra falar sobre o mestre e sua participação em nossa cultura. Resgatemos, então, a história de Paulo da Portela, pois, sem ele, Oswaldo Cruz, Madureira e, óbvio, a própria Portela não seriam os mesmos.

Antes, vamos situar o querido leitor no cenário histórico que havia quando o mundo ainda estava pra receber Paulo Benjamin de Oliveira. 1901 significava a República Velha, ou Primeira República, período que se iniciou com a Proclamação da República, um ano após o “fim” da escravidão. Na verdade, foi só uma mudança de regime sócio-econômico, mas que não significou muitas mudanças para uma grande parcela renegada da sociedade: A população negra/mestiça. Tudo porque a suposta benevolência do Império em abolir a escravatura foi mais uma manobra político-econômica por temer retaliações da Inglaterra – que possuía negócios com o Brasil e já se encontrava em processo de industrialização, o que tornava obsoleta e cara demais a mão-de-obra escrava. Soma-se isso ao fato de que os escravos já não aceitavam tão silenciosamente os maus tratos e humilhações, proliferando pelo Brasil movimentos abolicionistas, rebeliões e conspirações (alianças entre negros escravos, alforriados e abolicionistas).

Além do que, a própria família imperial sofreu com os interesses escusos dos republicanos. Se por um lado, os conservadores escravagistas dançaram no seu comodismo (segurando suas xicarazinhas com seus mindinhos abertos), a família imperial foi expulsa do país. A República Velha veio com seus resquícios de ignorância, já que “libertaram” o povo negro, mas não o integrou à sociedade com planos de socialização, educação ou emprego. Foram todos empurrados para áreas desabitadas, onde construíram suas moradias irregulares, coisa que, a partir dali, se popularizou e explodiu em quantidade sem controle ou interesse do Estado – daí, minha defesa para cotas sócio-raciais, pois, é algo que deveria ter acontecido há uns 125 anos, para que, hoje, a argumentação de “quem quiser passar na faculdade que estude” fosse justa e não hipócrita. Mas estou divagando…

Com as modificações na sociedade, com a urbanização e industrialização, os ex-escravos foram se movimentando do nordeste para outras partes do país, sobretudo para o Rio de Janeiro, então capital da nação. É aí que o Samba vem e se

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desenvolve na nossa famosa Pequena África, pois, era uma questão de sobrevivência procurar um lugar para se ganhar a vida e uma questão de honra manter sua cultura. Já tínhamos passado tanto tempo entre sincretismos e codificações através de batucadas, jongos e candomblés, né? O povo tinha força e malandragem pra isso. Na virada do século XX, toda essa força em manter viva a tradição ganha um reforço de peso.

Ninguém sabia ainda, mas em 18 de junho de 1901, nascia um dos mais valorosos representantes de nossa cultura: Paulo Benjamim de Oliveira, que fez muito mais do que sobreviver a uma realidade em que a mortalidade infantil se fazia muito presente em condições de pouco saneamento, educação, ou mesmo segurança. O filho de Mário Benjamim de Oliveira e Joana Baptista da Conceição, nasceu e brilhou, foi ferrenho defensor da cultura negra e, não só isso, do orgulho em ser negro e não andar de cabeça baixa, uma vez que tinha noção de que não era menos que ninguém. Lutou e estabeleceu parâmetros seguidos por muitos até hoje para manter a dignidade do negro e espantando a imagem de maltrapilho, marginalizado.

Paulo começa a marcar presença quando idealiza que as manifestações populares carnavalescas populares não tinham que ser sinônimo de baderna, desordem e, principalmente o medo que causava em outras classes sociais. Com sua liderança, ele encarou o preconceito e mobilizou as mudanças necessárias para que o carnaval do povo fosse visto como uma atividade cultural, valorizando assim, o próprio povão, sua cultura e história. Pensemos, rapidamente, no cenário que Paulo encontrou: Primeiras décadas do século XX, pra você ter noção do tamanho do desafio, e a ideia era trazer organização, paz e harmonia para que todos pudessem brincar o carnaval sem receios, isso quando nem o próprio Samba era algo tão definido e difundido como seria nos próximos anos.

Paulo da Portela no CarnavalDe início, Paulo fundou o bloco Moreninhas de Bangu, que, a exemplo do bloco Ouro sobre Azul (também fundado por ele, só que em Oswaldo Cruz), ainda não seguia a linha do Samba, mas dos ranchos, que eram mais comuns na época e influenciavam as classes populares. Essas primeiras atividades carnavalescas foram caminho para que ele chegasse a 2º diretor de harmonia no Baianinhas de Oswaldo Cruz, onde conheceria os “Antônios”: Rufino e Caetano, sendo esse trio, o responsável pela futura Majestade do Samba, G.R.E.S. Portela. Numa dissidência (diga-se, desentendimento com Galdino, líder do “Baianinhas”), Paulo, Caetano e Rufino fundaram o Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz, trazendo Paulo como seu primeiro presidente e liderando a organização nos primeiros anos, quando nada é fácil.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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