Paulo da Portela: Professor do Samba – PARTE 2

Paulo da Portela 5A primeira sede do Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz foi a casa de Paulo, que delegou a Dona Martinha, baiana ligada ao Candomblé, a tarefa de batizar e consagrar a escola aos santos de devoção (Nossa Senhora da Conceição e São Sebastião) que regem a agremiação até hoje. D. Martinha foi madrinha. A reunião do grupo, para passar os sambas que seriam apresentados e demais itens de pauta a serem organizados, era no trem que vinha da Central em direção a Deodoro, já que a maioria trabalhava no Centro do Rio mesmo, nada mais prático do que aproveitar a viagem pra falar de samba. Inclusive, correndo um pouco de lado na conversa, esses retornos de trabalho que originaram o famoso Pagode do Trem, que bem mais tarde, em 1995, foi reorganizado por Marquinhos de Oswaldo Cruz e já faz parte do calendário cultural e turístico do Rio de Janeiro nos eventos que culminam no dia 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba.

 

Voltando, Paulo batizou e Heitor dos Prazeres, conhecido e freqüentador de diversos redutos tradicionais de Samba – ei, não esqueça, foi ele quem “batizou” a Pequena África – chegou mudando o nome do “Conjunto” para Quem Nos Faz É O Capricho, sendo ele o responsável pelo desenho da bandeira e passando à sua esposa, D.Diva, a incumbência de confeccioná-la. Antônio Caetano não concordou e, Antônio Rufino, juntamente com Manuel Bam Bam Bam, esperaram passar o carnaval para retornar à direção da escola e, a despeito do apoio de Paulo a Heitor dos Prazeres, mudaram o nome para Vai Como Pode, tendo a nova bandeira obra de Antônio Caetano. Assim estava, assim ficou até 1º de maio de 1934, quando o delegado Dulcídio Gonçalves, diante dos dirigentes da escola, que intencionavam renovar sua licença de funcionamento, se negou a conceder a renovação pra uma escola chamada Vai Como Pode (segundo ele, uma grande escola não poderia ter um nome chulo desses).

 

Paulo Caetano e Rufino

Paulo, Caetano e Rufino: Fundadores da Portela.

Então, o próprio delegado sugeriu que se chamasse Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela. Paulo, mesmo não sendo conhecido como “Paulo da Vai como Pode”, aceitou. Até porque, um adendozinho inocente, o “Portela” do seu nome “artístico” vinha da Estrada, propriamente dita, já que a escola ainda não tinha esse nome, mas havia um outro Paulo por ali, de Bento Ribeiro. A escola já vinha obtendo bons resultados em concursos amadores, como a vitória no terreiro de Zé Espinguela, no Engenho de Dentro, tido como o primeiro concurso de escolas de samba da história, em 1929. O samba fora composto por Heitor dos Prazeres. Em 1935, a – agora – Portela entrou para a história como a campeã do primeiro desfile oficial do Rio. Em tempo, dá pra dizer que Paulo também foi o primeiro “puxador” (que saudoso Jamelão não me ouça agora) ao lado de João da Gente e Cláudio Bernardo.

 

Aliás, foi diretor de harmonia, mestre de canto, presidente, compositor, além de ser o responsável pelas moças que só podiam sair de casa depois que Paulo ia de porta em porta para garantir a segurança e a seriedade do trabalho (para voltar com cada uma assegurando sua palavra e a tranqüilidade dos preocupados pais, que ainda temiam ser o carnaval uma verdadeira violência). Tantas tarefas não se limitaram à escola, Paulo ficava famoso com sua liderança e tamanha representatividade se converteu em compromissos que acabaram o afastando da escola em 1936 e 1937, quando a escola sentiu sua ausência em apresentações confusas, mas, não mais do que as outras escolas, pois o país estava passando por mudanças profundas – a saber, em 1937 instaurava-se o Estado Novo, com a chegada de Getúlio Vargas à presidência, fato que também viria a influenciar muito na nossa cultura, mas isso é outro assunto.

 

É verdade que Paulo relutou em aceitar a mudança do nome da escola, mas mesmo que o nome tenha mudado, sua “carreira” vinha quase que transformando o antigo nome “Vai Como Pode” numa filosofia de trabalho, ou seja, não foi de todo abandonada a nomenclatura. 1939 foi o ano que marcou o retorno de Paulo à sua agremiação do coração, já consagrado entre os principais artistas do país e sendo novamente campeão. Destaque para o histórico enredo Teste ao samba, considerado por muitos especialistas como o primeiro samba-enredo da história. Histórico porque foi ali que Paulo veio de professor – alcunha que nunca mais o abandonaria – distribuindo diplomas aos componentes, diante da comissão julgadora e sendo aplaudido por toda a lotada Praça XI.

 

Paulo, Heitor, Gilberto Alves, Bide e Marçal - Engenho de Dentro

Paulo, Heitor, Gilberto Alves, Bide e Marçal.

A partir dali, a Portela ganhou asa própria como um filho que aprende a caminhar sozinho, sob os olhares cuidadosos do pai. Agora, um momento de turbulência estava por vir e nunca mais nem Paulo, nem Portela, nem o carnaval seriam os mesmos. Em 21 de fevereiro de 1941, nos arredores dos escombros que ainda se chamava Praça XI – obra do Estado Novo para a construção da Avenida Presidente Vargas – Paulo e Portela acabaram por romper relações. Marília T. Barboza e Lígia Santos, biógrafas de Paulo da Portela, contam que a confusão se deu pela antiga rixa entre Heitor dos Prazeres e Manuel Bam Bam Bam, pela desavença do primeiro com Antônio Rufino. O tristemente irônico, ou melhor, ironicamente triste foi que Bam Bam Bam se valeu de uma determinação do próprio Paulo para impedir que seu desafeto desfilasse.

 

O caso foi o seguinte: Paulo, Heitor e Cartola vinham de São Paulo, onde se apresentaram como o Conjunto Carioca, trajando ternos pretos de listras brancas, direto para os desfiles de Portela, De Mim Ninguém Se Lembra e Mangueira – escolas dos três, respectivamente. Manuel Bam Bam Bam até aceitaria Paulo desfilar sem as cores da escola, afinal, era Paulo da Portela, mas os outros (foco em Heitor dos Prazeres) não poderiam. Paulo não abandonou os amigos e se afastou da escola. Ainda, segundo Maria e Lígia, um agravante da situação é que a maioria dos integrantes da escola apoiavam Bam Bam Bam numa posição de “ou Portela ou Heitor” e, ao se solidarizar com seu amigo, deixou a escola com sentimento de confiança traída. Tudo isso encerrado com Manuel Bam Bam Bam dizendo “Nós não queremos mais esse moleque aqui”, ao que Paulo respondeu “Senhores, senhoras e crianças da Portela, vós sois uns ursos”. A partir daí, Paulo nunca mais voltaria à escola/instituição que fundou.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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