Paulo da Portela: Professor do Samba – PARTE 3

paulodaportelacidadosamba37Depois da saída abrupta da sua escola de coração, Paulo foi para a Lira do Amor, pequena escola – hoje extinta – do bairro vizinho a Oswaldo Cruz, Bento Ribeiro. Em 1942, a Lira não desfilou e Paulo foi assistir ao desfile da Portela. Tendo bebido demais, acompanhou aos prantos a agremiação que ele fora idealizador e fundador. De 1943 a 1945, as atividades carnavalescas foram bem reduzidas devido à II Guerra mundial, que não trazia ânimo para que se festejasse algo naquele período. Em contraponto ao humilde esforço de Paulo para elevar a Lira do Amor ao primeiro escalão – período que destaca o samba Cavaleiro da Esperança (1946), em homenagem ao senador do Partido Comunista Brasileiro, Luiz Carlos Prestes, a Portela passava por seu período de ouro, quando ganhou todos os campeonatos de 1941 a 1947 (grande fase em que Natal da Portela, amigo de Paulo, comandava a escola).

 

Os dois anos seguintes também não foram nada felizes para ninguém. A Lira não desfilou em 1948 devido à morte de um integrante, acontecendo o mesmo em 1949, só que dessa vez era o próprio Paulo quem nos deixava. Essa liderança nata que Paulo exerceu não foi favorável somente à Portela, ela foi fator fundamental para relações e conceitos usados até hoje no que diz respeito ao trato com pessoas ligadas ao meio de alguma forma, por exemplo, ele aproximou pessoas influentes do Centro da cidade em desfiles e eventos, levando a cultura de forma organizada do negro e do pobre às classes sociais mais abastadas, mostrando que apesar de seus mundos serem bem diferentes, não havia porque um lado não respeitar o outro.

 

Paulo esteve à frente de uma mudança significativa do povo pobre, Paulp da Portela 06pois, apesar de hoje em dia essa filosofia ter se banalizado e gerado um estado de “conformismo de pão e circo” – quando se usa a festa do carnaval pra distrair dos problemas, aceitando voltar à rotina diária de “servidão o resto do ano”, a intenção de Paulo foi diminuir o preconceito e acabar com os motivos que levavam a sociedade a tal atitude. Foi tão influente que recebia professores estrangeiros, ministros e, inclusive, foi anfitrião de Walt Disney e seu desenhista – na política de boa-vizinhança entre Estados Unidos e países da América Latina para apoio na 2ª Guerra – logo após, nascia dali o personagem Zé Carioca, influenciado pelo jeito diplomático e vestimentas elegantes de Paulo, que era contra foliões descalços e de pescoços descobertos (sua famosa máxima “pés e pescoços ocupados”).

 

Paulo era o cidadão-samba da época e mediou como poucos o contato entre o Samba e outras culturas e, graças a isso, excursionou pelo mundo levando a Portela a apresentações diversas representando o Samba no exterior. E por aqui mesmo, por qualquer motivo que viesse a necessitar esclarecimentos sobre Samba, lá estava Paulo em palanques e rádios para falr e todos queriam saber o que ele teria pra acrescentar. E ele tinha esse dom, já que ajudou a desvincular a imagem do sambista da marginalidade (claro que nada disso afastou coisas como esse racismo velado que sofremos até hoje, mas enfim…). A própria postura de Paulo já era sinal de sua campanha, já que se vestia bem, era trabalhador, elegante e educado. Queria mostrar que o negro não era uma besta ignorante com a única capacidade de servir ou “vagabundear”, isso era apenas conseqüência de uma política de “libertação” que largou os negros nos cantos marginais da cidade, mas não os integrou à sociedade (coisa que as atuais cotas tentam compensar 125 anos depois).

 

Na verdade, não paro de divagar que se Paulo tivesse nascido em outro país com um histórico de luta por igualdade e respeito, talvez não fosse mais famoso apenas como um sambista antigo, talvez figurasse – em termos de projeção, já que sua participação na luta foi fundamental – ao lado de Nelson Mandela e Martin Luther King, Jr., por exemplo. É bem verdade que aqui ele tem seu valor reconhecido, mas fica confinado ao contexto específico do Samba e da fundação da Portela, mas não se fala em sua verdadeira luta por dignidade do negro. Francamente, é revolucionário, quando a gente lembra que tratava-se de um período de escravidão muito recente e ele já punha a mão na massa pra libertar mais uma vez o povo negro, dessa vez, de sua própria mentalidade auto-induzida de que a marginalização era o caminho natural de nossa gente.

 

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Enterro de Paulo da Portela.

Apesar de a luta ainda estar longe de acabar, o trabalho de Paulo é ainda uma das referências do negro no Rio de Janeiro, quando se fala em unir culturas e valorizar o povo das regiões periféricas, do subúrbio e a produção cultural desses lugares. Nossa luta é todo dia e a de Paulo se encerrou com um colapso cardíaco, segundo um médico amigo, no dia 31 de janeiro de 1949, justo quando o professor se achava pronto para esquecer as rusgas de 8 anos antes e retornar à sua tão querida escola. O enterro de Paulo da Portela foi condizente com sua presença em vida, quando 15 mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre até o cemitério de Irajá tendo cruzado o bairro de Madureira. O amigo Natal tentou cobrir o caixão com a bandeira da Portela, mas foi impedido por Maria Elisa, esposa de Paulo, que disse “se ele não voltou em vida, também não voltará depois de morto”. Termina assim uma das histórias mais marcantes de nossa cultura e um dos personagens mais relevantes e carismáticos que, ao contrário do que se lamuriou em letra e música, seu nome não caiu no esquecimento.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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