O peso do nome no samba

Olhando bem a "seleção" do Grupo Especial, já dá pra ter farta ideia de quem vem como favorita ao título ou ao rebaixamento.

Olhando bem a “seleção” do Grupo Especial, já dá pra ter farta ideia de quem vem como favorita ao título ou ao rebaixamento.

Todo lugar tem seus Q.I.’s, seus pistolões e seus “é amigo/parente meu, dá uma força aê”, mas vamos falar do contexto carnaval de sambódromo pra justificar o título. A questão é bem simples, nome pesa mesmo antes que o dono do nome peça pra que seu prestígio faça a balança pender para seu lado de interesse. É o que Foucault diria sobre as relações de poder, o medo da punição por desobediência assola de tal maneira os subalternos, que as classes baixas já fazem por agradar os dominantes antes que os mesmos precisem mandar. Mas estou divagando…

Vamos ao ponto diretamente, Lucinha Nobre e Rogerinho, 1º casal de mestre-sala e porta-bandeira (e não só ‘primeiro casal’, como a transmissão televisiva insistia em falar) saíram da Portela onde sempre tiravam 10 e chegaram na Inocentes de Belford Roxo com o desafio de elevar o conceito da escola com seu talento e currículo. Mas, a bandeira acaba sendo julgada e o casal aprendeu isso da forma mais amarga, vendo a escola ser rebaixada a cada 10 que não vinha (na verdade, só um somado a três 9.8).

De mais a mais, tudo conspirou contra o casal e a agremiação que

Lucinha Nobre e Rogerinho: Dançaram. Todo trabalho para serem julgados pela bandeira que protegiam.

Lucinha Nobre e Rogerinho: Dançaram. Todo trabalho para serem julgados pela bandeira que protegiam.

defenderam. Há aqueles fatores já batidos, como os jurados que não parecem adotar critérios consistentes, como um dar 10 e outro dar 9.5 num mesmo quesito para a mesma escola. E nem me venha com o argumento de que o jurado só julga pelo que viu à sua frente, não se responsabilizando pelo que acontece no resto da avenida, pois, mesmo em desfiles regulares isso acontece. Falta de preparo não é, pois, são nomes de carnavais bem anteriores a esse de 2013, então, só podemos dizer que se não há preparo (displicência perdura por uma geração inteira), há outros interesses. E porque não mudá-los, para profissionais de área condizente com o quesito avaliado? Já vi médicos analisando, pô, se não trabalha no ramo, assista em casa.

Lucinha e Rogerinho, desculpem, mas não é que vocês tenham desaprendido a dançar, é realmente difícil explicar só terem levado um 10, coisa que era o padrão pra vocês há um ano atrás, como nos anteriores, mas a rotina de carnaval define – não oficialmente, só de costume – que os jurados elejam aquelas escolas que vão brigar pelo título, um segundo grupo de agremiações que só foram corretas e aquela última leva que vai brigar, mas pra não cair.

A Inocentes veio e voltou no mesmo pique, rumo ao Grupo A. Outras poderiam estar no seu lugar, mas têm mais nome.

A Inocentes veio e voltou no mesmo pique, rumo ao Grupo A. Outras poderiam estar no seu lugar, mas têm mais nome.

E, infelizmente, nessa hora, tanto quanto para a vitória, o nome da escola, a bandeira dela faz diferença. Por exemplo, Unidos da Tijuca – do incontestavelmente talentoso e criativo Paulo Barros – se tornou um nome de peso ultimamente, ou seja, sempre está brigando pelo título, assim como a Beija-Flor, do general Laila (que, dizem freqüentadores da quadra de Nilópolis, governa a escola com mãos de ferro e uma vara de marmelo para as pernas dos desobedientes). A Vila Isabel geralmente faz carnavais bonitos, mas antes de Rosa Magalhães, não vinha como favorita, chegou a ter uma trajetória errática entre grupos de acesso e especial dos anos ’90s aos ‘00s.

A própria carnavalesca Rosa Magalhães sempre teve a fama de fazer desfiles corretos, porém pouco animados, quando esteve na fase irritantemente vitoriosa da Imperatriz Leopoldinense, foi incontestável, mesmo sob apelos de público para que a garra da escola também contasse junto à técnica. Hoje, a Imperatriz não está mais tão “poderosa”, nem Rosa na Vila Isabel, apesar do desfile de segunda-feira (12/02) ter sido um dos mais animados e bonitos que já vi, sobretudo sob seu comando.

E, voltando um pouco na parte de escolas que brigam pra ganhar ou pra não cair, escolas, outrora poderosas, mas com pouco apelo de bicheiro (outro fator que veio mudando estruturas de preferências das escolas) acabam tendo que se segurar como podem. A Mocidade, por exemplo, que me queimou a língua fazendo um desfile pra cima, bateria inspirada como poucas nesse ano, e terminou em penúltimo lugar na apuração. Alguém mais percebe que a escola já vem uns anos nessa mesma posição?

Mas sabe o que salva escolas como a Portela, Mocidade, São Clemente ou Ilha, por exemplo? Justamente escolas como Inocentes de Belford Roxo. É muito difícil os jurados não rebaixarem justo a que acabou de subir ao grupo especial, ainda mais porque as outras têm um padrão estabelecido. É só reparar como a Unidos da Tijuca esse ano teve N problemas e ganhou 10 em enredo, evolução, harmonia e sei lá mais quase tudo, ao passo que a Inocentes não ganhou 10 em nada, praticamente, sendo que, segundo me contaram, agitou a Sapucaí.

O único jeito de uma escola relativamente pequena não cair no ano seguinte ao seu acesso ao especial é se uma já estabelecida cometer alguma falha grave que obrigue os jurados a tirarem-lhe pontos. Do contrário, é a mesma elite sobre a mesma classe média e sempre o mesmo assento ejetável diretamente para o grupo A (grupo, Globo, entendeu? GRUPO e não SÉRIE, pois ninguém fala SÉRIE ESPECIAL, ok? Bom…).

Boa sorte à Império da Tijuca em 2014 no Grupo Especial. E juízo, hein!

Boa sorte à Império da Tijuca em 2014 no Grupo Especial. E juízo, hein!

Rogerinho e Lucinha já disseram: Julga-se a bandeira e não o trabalho (bem ou mal) feito. Acredito que isso seja parte do jogo, tipo, um dever de casa. Você pega a sinopse do desfile e sai marcando notas de acordo com seus contatos, peso dos nomes e possíveis retaliações/premiações. É toda uma politicagem que, aposto, não faz com que o avaliador se preste ao sacrifício de analisar. Já vai tirando pontos de escola pequena e dando todos eles para as grandes. É a hora que todo delírio de um carnavalesco conceituado faz sentido em explicações absurdas (que me lembram muito aquela piada do Nós na fita, sobre enredos), ao passo que uma escola mais modesta poderia falar sobre o próprio carnaval didaticamente, que ia ser taxada de confusa ou pretensiosa.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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