Enredos patrocinados

Getúlio Vargas e seu Estado Novo vieram com a proposta de elevar o Samba ao patamar de cultura '"oficial" do Brasil, mas não foi exatamente como sua raiz, e sim, um pretexto para a propaganda chegar às classes mais populares.

Getúlio Vargas e seu Estado Novo vieram com a proposta de elevar o Samba ao patamar de cultura ‘”oficial” do Brasil, mas não foi exatamente como sua raiz, e sim, um pretexto para a propaganda chegar às classes mais populares.

Vamos fazer uma passada rápida pelo que é um enredo patrocinado. Bom, patrocínio por patrocínio, isso existe antes de os desfiles das escolas de samba serem oficiais, quando jornais e revistas ofereciam eventos carnavalescos onde os foliões iam se divertir e ganhar prêmios simbólicos com suas agremiações (que muitos contam até hoje como títulos, mas deixa pra lá). Aí, veio o governo de Getúlio Vargas, que sacou que sua reforma político-sócio-ideológica funcionaria muito melhor aplicando ações populistas, como, no caso, patrocinar desfiles de escolas de samba e maior espaço para músicas populares nas rádios. Aí, o povo tava no papo.

 

Então, se analisar com uma visão ampla, enredos patrocinados são realidade desde que as escolas de samba existem, já que essa abertura oficial por parte do governo não seria gratuita. O sambista ganhou voz, mas virou porta-voz do governo do Brasil, com temáticas condicionadas à exaltação ufanista de nossas belezas naturais, história e força de viver de trabalho duro e a alegria do carnaval. Ou seja, quando o sambista ganha voz, não é pra falar de sua realidade, mas de uma utopia, uma propaganda. Sendo assim, é exatamente o que se vê hoje, só que com a adição do elemento “iniciativa privada” acrescido à equação.

 

A obrigação, por parte do Estado Novo, para que os enredos fossem

Não canso de falar nisso, né? Só escolas do gabarito da Beija-Flor, Unidos da Tijuca ou Salgueiro podem fazer enredos esdrúxulos. Aí sim, todo mundo entende como genialidade. As outras, vão ser vistas só como pretensiosas ou "sem noção".

Não canso de falar nisso, né? Só escolas do gabarito da Beija-Flor, Unidos da Tijuca ou Salgueiro podem fazer enredos esdrúxulos. Aí sim, todo mundo entende como genialidade. As outras, vão ser vistas só como pretensiosas ou “sem noção”.

exclusivamente brasileiros trouxe um lado positivo, o resgate – ainda que rudimentar e alienado – da história e da cultura do país. O problema é quando o enredo vem na forma de um grande outdoor com algum assunto que não tem nada a ver e ainda derruba escolas. Nem vou falar mais do caso – entre muitos – da Porto da Pedra 2012 que se afundou fazendo propaganda de marca de laticínios. Esse ano a coisa ficou mais escancarada, mas é uma realidade já tão tradicional quanto o próprio carnaval de sambódromo.

 

O problema é quando vêm encomendas de enredos por parte de patrocinadores que nada têm a ver com o carnaval, será que é mais barato um desfile do que um filme de 30 segundos nos intervalos de algum programa de audiência garantida? É tal de enredo divulgando cidade por causa da Copa, é Rock in Rio (não falei, Mocidade? Penúltimo lugar!) e os dois destaques desse ano pra mim, pelo menos: A Vila, que veio cantando a vida no campo com um samba de melodia simples e condizente e o próprio assunto, muito do brasileiro. Campeã com graça. Mas a mais comentada, foi, sem dúvida, a Beija-Flor, que veio divulgando a raça de cavalos manga larga marchador.

 

enredospatrocinados 2Fora a divulgação na vitrine de um negócio que só interessa aos milionários que vão mexer com cavalos, a escola só se deu bem por que tem um bom nome e apoio de mídia. Ou você duvida que se fosse a São Clemente, por exemplo, não ia virar motivo de piada? O nome pesa, como eu disse em post recente. Ao mesmo tempo que falo que se a Inocentes de Belford Roxo – atual rebaixada – trocasse de enredo com a escola de Nilópolis, dificilmente os resultados não seriam diferentes.

 

E Neguinho da Beija-Flor já me deu nos nervos com a declaração logo após os desfiles do grupo especial: O enredo da Beija-Flor do ano que vem será José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Me deu nos nervos pelo seguinte: Só um tipo de enredo me irrita mais do que os produtos externos, e é justamente as homenagens biográficas a personalidades que tiram a vez de algum sambista clássico que nunca fora homenageado. Está na cara que a amizade e o carisma do homenageado vai fazer toda a diferença, em se tratando de uma escola como a Beija-Flor, né? Tipo o campeonato em 2011, com Roberto Carlos, quando muito se comentou se foi o desfile ou o cantor que ganhou o título. Vai ter muita Globo na avenida e não vai ser só na transmissão.

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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