Samba é a voz do povo

Obras do Bota Abaixo: À direita, Avenida Mem de Sá sendo construída.

Obras do Bota Abaixo: À direita, Avenida Mem de Sá sendo construída.

Samba é a voz e o morro era o local, já que fora das favelas o negro não tinha voz. Seus núcleos de auto-afirmação – talvez uma evolução das senzalas, quilombos e batucadas – eram lugares e momentos de se externar as vozes que ficavam abafadas durante o cotidiano ordinário, quando o negro tentava se integrar à sociedade que o tinha apenas como um serviçal de menor valor (a essa altura da popularização do Samba, não esqueça, estamos falando de início do século 20, Bota-Abaixo, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata e outros fenômenos políticos de opressão e dissociação do negro dentro da cidade).

 

O Samba significa muito mais do que um gênero musical, pois, antes de Donga e Mauro de Almeida registrarem os versos que eram cantados por todos em casa de Tia Ciata, aquela parcela da população já via necessidade de sua “contra-cultura”, por assim dizer, um modo de encarar o preconceito da sociedade, que simplesmente achava que o negro e seus elementos culturais significavam apenas baderna, selvageria e retrocesso social. Até era bem rústico o modo como as pessoas faziam suas manifestações populares, mas se isso fosse motivo pra limar de vez aquele certame, acho que muita coisa de origem européia já poderia ser eliminada também, não?

 

O carnaval era uma boa demonstração de que o negro era tão sambavozdopovo 2 kalimbistas-debretrebaixado na sociedade que só poderia ser “relegado” ao status de serviçal – na melhor das hipóteses – pois, poderia ser visto como algo pior para a época: Malandro. Malandro era o avesso da ideologia da república, tanto da Velha quanto da nova (Estado Novo), fato esse que fez com que o figuraça que enaltecia a vadiagem fosse transformado no amigão do trabalho e da moralidade, ao invés do explorador de mulheres, boêmio e vadio por gosto e convicção. Só lembrando, as sociedades carnavalescas, os entrudos e ranchos eram manifestações da classe média. Só depois o negro veio a ganhar espaço no carnaval fora de seus redutos específicos, como favelas ou regiões como a Pequena África.

 

O negócio é que o eleitorado se concentrava nas favelas, pra onde o negro foi empurrado pelas reformas de “embranquecimento” e “europealização” do Rio de Janeiro (então capital da nação) e do Brasil. Assim, Gegê (Getúlio Vargas para os íntimos) veio com uma medida um tanto ditatorial de que o Samba, pra ter voz nas rádios – recém-abertas à música popular e propaganda – teria que se adequar ao discursos político ideológico de seu governo: A propaganda no exterior de um Brasil trabalhador e camarada com todos. Assim, muita coisa passou a ser dita com tom jocoso e essa ironia passou a caracterizar o malandro de verdade.

 

sambavozdopovo  3 1907cE o malandro passou a ser a voz do pobre, pelo pobre, mas que o pobre nunca foi realmente, já que seria perseguido pela polícia para sempre. Foi um arquétipo no qual era projetado o desejo do pobre de ter destaque na sociedade fazendo o que aprendeu com seus ancestrais. Assim como escolas de samba, que davam ao pobre a ilusão de ser rei por quatro dias, antes de voltar a ser o serviçal de cabeça baixa durante os outros 361 dias do ano. Enquanto o carnaval era o ponto de escapismo do pobre e negro, com a ilusão de que aquele era seu momento de brilhar, sem perceber, era levado a ligar no subconsciente esse prazer de brincar à “bondade” do governo. Se por um lado ganhou-se em temática, por outro, foi pelos motivos errados, já que a situação do Brasil não era tão alegre por baixo do véu da propaganda política.

 

Então, o Samba tem muito mais importância na população do que sambavozdopovo 4 sambasimplesmente gosto musical e é pra essa parte que nós, admiradores sambistas pedimos e exigimos respeito da sociedade. Não estamos aqui discutindo se um artista ou uma música é boa, mas explicando porque o Samba é um elemento tão importante na sociedade brasileira, assim como o halloween é nos EUAses, por exemplo (falei de uma cultura exterior, porque é mais conhecida do que a nossa por muitos, mesmo que por alto). É só pensar que os morros e favelas (pra onde o Samba foi empurrado e não criado, como se diz errôneamente por aí), onde encontrou seu porto seguro longe da perseguição se tornando uma espécie de canto de libertação, a exemplo do que acontecia nas senzalas. Núcleos de auto-afirmação da cultura que era sufocada no asfalto e maquiada durante o carnaval de modo que deixava de ter sua essência enaltecida.

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Falando Nisso... e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s