Jorge Aragão: Um moleque atrevido

Esses dois discos foram responsáveis por muitas de minhas influências no Samba e das primeiras que lembro de ter ouvido diretamente de exemplares originais. Ainda estão por aqui, apesar de eu tê-los em mídia digital.

Esses dois discos foram responsáveis por muitas de minhas influências no Samba e das primeiras que lembro de ter ouvido diretamente de exemplares originais. Ainda estão por aqui, apesar de eu tê-los em mídia digital.

Jorge Aragão da Cruz completa hoje, 1º de março, 64 anos de idade e poesia pura dentro do Samba. Está há cerca de 40 anos na boca do povo, tendo começado tocando em bailes até ter seu primeiro samba gravado, Malandro (em parceria com Jotabê), por Elza Soares, em 1977. Logo depois, foi para o Cacique de Ramos e fez parte da geração que começou tudo isso que se chama pagode (e que se deturpou uns 10 anos depois, mas isso eu sempre falo por aqui). Membro-fundador do Fundo de Quintal, nem bem gravou o primeiro trabalho e já se mandou para a carreira solo que conhecemos até hoje.

 

Dono de um estilo que consegue soar com a mesma identidade serena e cadenciada, seja em sambas românticos estilo balada (Papel de pão), levadas afro (Preto, cor preta) ou toadas mais pra frente (Coisinha do pai), Jorge Aragão é um baluarte do Samba moderno na maneira como influencia outros e pelo fato de que diversos grandes nomes de nossa música já gravaram composições do poeta do samba, tais como Zeca Pagodinho, Alcione, Beth Carvalho, Emílio Santiago, etc. Jorge tem uma carreira regular e muito longeva, ele consegue unir sucessos antigos aos novos, brinca de fazer repertório e ainda traz elementos diferenciados, como a Ave Maria em solo ou as Bacchianas, de Villa-Lobos.

 

Uma das paradas mais legais da carreira de Sr. Aragão: A fantásticajorge aragão 64 anos 1 música Moleque atrevido (letra na foto). A música é bem didática e me parece que foi escrita para um pagodeiro ou outro daquela fase tosca – mas comercialmente importante pro cenário pop brasileiro, admitamos, com reservas – dos anos 1990. Lembra? Aqueles visuais coloridos com acessórios desnecessários ou de ternos fúnebres ainda me dão pesadelos. Enfim, a canção é uma resposta a gente como o pequeno vocalista uivador – saído recentemente de um famoso grupo de pagode daquela época – que confunde números e cifras com talento e influência.

 

As palavras ‘moleque’ e ‘atrevido’ eram muito utilizadas em nomes de grupos e nomes de músicas, já começa por aí a genialidade de se considerar também um, mas ele vai além, primeiro ele explica como foi seu trabalho até chegar ao sucesso, esbarrando em preconceito, falta de oportunidades do mercado, falta de espaço na mídia e não deixando que qualquer deslumbrado pise, fazendo valer sua moral de ter contribuído para que aquela geração abrisse espaço para os ingratos que nem conhecem de história. Ele ainda finaliza com elegância dizendo que chegou sem pisar em ninguém (coisa que os mais novos mimados não aprenderam) e que, justamente, ao peito e a raça dos pioneiros é que existe toda essa festa fake sobre o que é “raiz”.

 

Show mais recente que assisti. Dia 30 de novembro de 2012, dia nacional do Samba, em Oswaldo Cruz.

Show mais recente que assisti. Dia 30 de novembro de 2012, dia nacional do Samba, em Oswaldo Cruz.

A tendência é ver com lucidez que sua identidade é algo além da razão, uma reafirmação de nossa cultura, coisa de pele do fundo do nosso quintal. Enfim, não vou exemplificar o talento e influência de Sr. Jorge Aragão pelas minhas andanças, mas pelo alcance de sua obra. É de autoria dele o famoso samba que chegou a Marte, o já citado Coisinha do pai, só isso já é algo que eu vou festejar e agitar geral com a população amante da música de hoje e de ontem.

 

É mole falar “salve, salve” ou fazer gesto de reverência (se curvando com os braços estendidos) ao citar ou se deparar com um ícone feito Jorge Aragão, mas a verdade é que nem todos ganham fama de bamba em samba de roda. Muitos se fazem dentro do estúdio junto com o pessoal do marketing e já acha que tem talento. Só uma coisa, um música de Jorge Aragão tem uns 40 anos e todo mundo lembra, não só isso, como pede nos shows, enquanto tem muito moleque pouco vivido produzindo frases de efeito feito desesperados pra serem esquecidas em 2 meses. Se um desses caras parar de produzir por uma semana, vira coisa do passado na hora. Jorge Aragão não é coisa do passado… É um clássico.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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2 respostas para Jorge Aragão: Um moleque atrevido

  1. Vinicius disse:

    Quem é esse cantor?
    Não pesquei

    • É o Vavá do antigo grupo Karametade. A exemplo de Thiaguinho, que alguns anos atrás resolveu chutar que mudou algo na história do Samba, o cara veio falar que a geração anterior e pioneira da qual Aragão faz parte estava algo como ultrapassada… Jorge Aragão segue firme na ativa, já o bunitim da vez… cadê? Rá!

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