Dia internacional contra a discriminação racial

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21 de março: Dia internacional contra a discriminação racial. E aí, Morgan Freeman, enquanto ator famoso e conceituado, você não poderia nos dizer como esse dia também é desnecessário, já que todos somos humanos e iguais perante a  lei ou Deus?

Um dia como este faz a gente ter um argumento irrefutável na luta por direitos sociais igualitários – por que pela lei, até temos, mas não se pratica isso culturalmente. Sempre quando chegam datas simbólicas para a comunidade negra, vem algum grupinho tentando desprezar, menosprezar ou até ofender descaradamente mesmo. Como acontece no feriado de Zumbi, dia da consciência negra em 20 de novembro ou 13 de maio, dia do que se convencionou chamar abolição da escravatura (falo disso daqui a dois meses). É sempre um tal de comentários ignorantes sobre a possibilidade de haver um dia da consciência branca seria repudiado, mas pelo negro pode, como se fosse uma regalia, não um gesto contra esse mesmo tipo de preconceito bobo e infantil. Até porque nunca ouvi falar de milhões serem sequestrados e roubados da Europa, por exemplo, pra serem humilhados do outro lado do mundo vivendo abaixo dos animais na pirâmide social.

Ronaldo Fraga_ Foto de José Pelegrini

Chamem-me de chato, mas modelos com bombril no quengo não representa o potencial de beleza do cabelo crespo, parece mais uma criança “descobrindo” um brinquedo no que deveria ser uma identidade digna.

Mas o que me traz aqui é o mote de Ronaldo Braga, o estilista, que causou alvoroço com sua proposta de por modelos pra desfilarem usando palhas de aço na cabeça, simulando cabelos crespos. A ideia de Ronaldo seria “subverter um preconceito enraizado na cultura brasileira” e mostrar como o cabelo crespo tem potencial para “serem moldados como esculturas”. Percebem a boa intenção dentro de uma atitude incoscientemente racista? Não quero acusar o estilista do crime de racismo, na verdade não vou, mas isso levanta uma questão que vai mais a fundo na situação do preconceito velado no Brasil: O não saber racista.

Desde pequeno eu ouço piadinhas sobre meu cabelo, meu nariz, meus lábios e, claro, sobre minha cor, mas não é um recalque vingativo retroativo que estou destilando aqui, até porque não se compara a visão dele sobre esponja de aço como escultura e, por exemplo, Danilo Gentilli justificando seu preconceito – ao comparar negros a símios – pelo argumento de que se tribos negras eram rivais na África, logo ele não tem culpa pela escravidão. Tá, mas se não houvesse escravidão, provavelmente ele não teria muito o que ofender sob a máscara do humor livre.

racismoeEnfim, modelos brancas ou negras portando esponjas de aço na cabeça pode até ter a intenção artística de ver o cabelo crespo como uma potencial fonte estilística, mas isso ‘coisifica’ um traço do negro que é tão comum pra nós quanto o cabelo liso para quem o tem. Não queremos ter cabelo crespo e pensar que ele é uma peça, nossas meninas negras não podem crescer se auto-menosprezando e usando expressões como “cabelo ruim” e demais apelidos que sim, estão enraizados no nosso racismo cotidiano. Quem não falou, ouviu ou presenciou em algum momento uma pessoa – adulta ou criança – se valer do “inofensivo” apelido de cabelo-bombril (inclusive na canção Loirinha Bombril, do Paralamas) que me atire pedras agora se discordar, mas pra mim, Fernando, essa é uma atitude que mostra como o racismo é mais intrínseco do que a maioria pensa. É o mesmo que “elogiar” um negro com a célebre e infame frase “fulano é um negro de alma branca”, como Paulo Henrique Amorim fez em relação a Heraldo Pereira.

Como diria Jorge Aragão em Preto, cor preta, “pra quem me aceita e como negro me respeita, eu sou pretinho, nego véio, coisa e tal“. No mais, onde você guarda seu racismo? Ou melhor, onde você o usa?

Em tempo: Hoje também dia internacional da felicidade. Carpe diem.

A auto-afirmação da identidade negra é algo de extrema importância no começo da vida, pois, é de pequeno que somos programados pela sociedade a nos achar diferentes sob o termo hipócrita de 'exóticos', como se não fossemos milhões e milhões a sustentar esse país há mais de 300 anos.

A auto-afirmação da identidade negra é algo de extrema importância no começo da vida, pois, é de pequeno que somos programados pela sociedade a nos achar diferentes sob o termo hipócrita de ‘exóticos’, como se não fossemos milhões e milhões a sustentar esse país há mais de 300 anos.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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2 respostas para Dia internacional contra a discriminação racial

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