Mulata-Fetiche: Invenção nacional

Imagina, Sabina sair de sua banca de quitutes, como essas moças, e iniciar toda uma cultura de mulheres sensuais a serviço da arte?

Imagina, Sabina sair de sua banca de quitutes, como essas moças, e iniciar toda uma cultura de mulheres sensuais a serviço da arte?

Você sabia que a mulata – artigo de exportação – brasileira veio de um modelo estrangeiro? E que esse modelo estrangeiro era, na verdade, LITERALMENTE, uma modelo? Ou melhor, umas três?! E da “zeurópa”!!! Calma, que eu explico. Fique por perto.

Calmou? Vamos lá, tudo começou com a verdadeira mulata Sabina (sim, ela existiu), uma negra, idosa e pobre que vendia laranjas numa banquinha instalada à Rua da Misericórdia, Centro do Rio de Janeiro, então capital do Império – que viria a ser República naquele mesmo ano de 1889. Acontece que Dona Sabina vendia suas laranjinhas (as frutas, não aquele suquinho de água suja num invólucro plástico antigo) em frente à Imperial Escola de Medicina até ser proibida do ofício por ordem impetrada pelo delegado Jacome Lazary. Ocorre

A espanhola Pepa Ruiz: Segunda europeia a interpretar a negra/mulata Sabina no teatro.

A espanhola Pepa Ruiz: Segunda europeia a interpretar a negra/mulata Sabina no teatro.

que, contrariados com a tal arbitrariedade, estudantes da faculdade de medicina armaram um protesto na manhã de 25 de julho de 1889 e saíram pelo Centro com um cartaz ao “eliminador de laranjas”e frutas e legumes em formato de coroa, protestando por onde passavam com bom humor e pacificamente. Da Rua da Misericórdia, foram para a 1º de Março, então, para a a Rua do ouvidor (local de redações dos principais jornais da época). A medida popular deu certo e a ordem foi revogada, mas, a partir daí, a mulata Sabina e seus apoiadores já estavam mudando a história. Primeiro, uma negra estava ganhando as atenções apenas um ano e pouco após a “libertação”, e não era pela cor em si, mas pelo apoio da classe média para que pudesse manter seu tabuleiro para vender honestamente suas laranjas.

Arthur Azevedo, o autor da famosa e pioneira música.

Arthur Azevedo, o autor da famosa e pioneira música.

A história começou a ser escrita quando uma ‘revista de ano’, de 1890, trouxe uma encenação sobre as laranjas de dona Sabina. Revistas de ano eram peças teatrais cômicas e musicais que resumiam em seu espetáculo os principais eventos do ano anterior. Só nisso, a história da vendedora já ganhou um fôlego de um ano pro outro. E o assunto atraía muito público. E é aí que a coisa muda. Muita gente foi ver a história da tal negra, mas ela era interpretada por uma… GREGA! Sim, você leu grega e não negra. Não é um trava-línguas, é racismo mesmo. Confira que a abolição oficial da escravatura tinha acontecido há uns dois anos, então, não se encontrava atores profissionais negros facilmente – nem hoje, mas por motivos quase diferentes. Juntando isso ao fato de Ana Menarezzi ter um corpo bem diferente do da idosa rechonchuda, temos o espetáculo que o público queria ver, com um belo corpo representando uma mulata e não uma negra velhinha e gordinha. Mais tarde, em 1892, um novo espetáculo foi feito pela companhia portuguesa Sousa Barros, mas apesar de falar do assunto nitidamente, não citava Sabina, nem suas laranjas, apenas uma baiana caracterizada, vendedora de rua que cantava lundu. Ela era vivida pela estrela da companhia, a espanhola Pepa Ruiz.

Pepa Delgado, além de interpretar a música, tem em sua história o fato de ter sido ela a idealizadora do que viria a ser o Retiro dos Artistas.

Pepa Delgado, além de interpretar a música, tem em sua história o fato de ter sido ela a idealizadora do que viria a ser o Retiro dos Artistas.

Enfim, virou música, As Laranjas da Sabina (Sem banana, macaco se arranja / e bem passa monarca sem canja / mas estudante de medicina / nunca pode passar sem as laranjas / as laranjas, as laranjas da Sabina), aliás, uma das primeiras gravações musicais do Brasil, um tango brasileiro de autoria de Arthur Azevedo para a peça A República. O mote republicano até foi atribuído, mas o fato é que a figura da mulata sensual tornou-se muito comum e enxertada no mundo do humor por osmose – e uma certa padronização tosca – o que trouxe a mulher negra para a ribalta dos olhares desejosos e fetichistas, mas também elevou a “mulata” a um patamar de estrela que talvez não fosse alcançado se a figura em questão fosse a modelo original. Aliás, mulata e baiana, se tornaram dois tipos bem populares na sociedade, com o advento do protesto dos estudantes de medicina em benefício de negra, ops, mulata Sabina. Eu, particularmente, ainda não sei bem porque ainda se usa esse tipo de humor “mulher gostosa”. Eu olho uma mulher gostosa e admiro, mas vou rir do quê? Deixa pra lá, em outro post eu falo sobre o fetichismo com o negro e com a negra. Por enquanto, fique com a preciosidade que é Pepa Delgado (“outra Pepa, não a Pepa Ruiz que citei antes”), interpretando acompanhada por um piano, “As Laranjas da Sabina”.

“Sou a Sabina
Sou encontrada
Todos os dias
Lá na carçada
Lá na carçada da academia
Da academia de Medicina

Os rapazes arranjaram
Uma grande passeata
Deste modo provaram
Quanto gostam da mulata, ai

Sem banana macaco se arranja
E bem passa monarca sem canja
Mas estudante de medicina
Nunca pode passar sem as laranjas
As laranjas, as laranjas da Sabina

O senhor subdelegado
Homem muito restingueiro
“Amandou” por dois sordados
Retirá meu tabuleiro, ai.”

Fontes: Revista de História e Franklin Martins

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Falando Nisso... e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s