Pagode da antiga é pra quem pode

Candeia: “Não se pode ficar sem entrar no pagode”.

Há – ainda – aqueles que por conveniência comercial, ignorância ou apenas senso comum, ainda chamem Samba e Pagode de sinônimos e eu já reincidi bastante nesse assunto pra explicar de novo a diferença que existe hoje em dia na visão geral do cenário musical e a diferença que existia antes, quando ambos os termos eram  – aí, sim – sinônimos, sendo apenas o Samba uma denominação mais específica, coisa que o pagode não era, já 1que englobava outros tipos de música a animar as festas no interior e na transição da cidade rural para a urbana. Pronto, falei que não ia voltar na explicação e acabei voltando de mansinho, mas foi até bom.

FDQ e a madrinha do “movimento”. Não tem como desvalorizar isso como “antigo” pra aceitar qualquer coisa que vem e vai com o tempo e não fica como essa turma.

Isso tudo pra dizer que não é só Jorge Aragão, por exemplo, que está na ativa e fala em pagode com a propriedade de quem esteve lá quando o pagode (hoje, com o complemento ‘de raiz’) não tinha glamour algum, ao contrário, era coisa de pobre com um cavaco numa mão e um copo de cachaça na outra, aliás, Candeia já cantou uma canção onde dizia “não se pode ficar sem entrar no pagode”. Ainda existem muitos pagodes bons e nada têm a ver com aquele produto do pessoal do marketing, das rádios da moda, casas de show e  programas popularescos, aliás, já reparei que os pagodes da vida nunca NUNCA tocam esses tais “pagodes” que nada trazem de cultura negra, apenas roubaram o termo pra se encaixar numa prateleira da loja e vender ao gosto imediatista e consumista.

O estouro do “pagode de raiz” estava pra vir por ali, na formação inicial do Fundo de Quintal.

Nada disso dura muito, graças a Deus! Esse produto é um verdadeiro cavalo-de-Troia da cultura pop brasileira, pois, se infiltra, rouba informações e faz as pessoas pensarem que estão levando uma peça artística, mas levam mesmo é um peso de papel pré-datado.  Mas veja bem, eu não sou contra o que se faz pra vender, pois, ei, vivemos numa sociedade capitalista, então, grana é sobrevivência. Mas não façamos disso desculpa pra fazer qualquer coisa por dinheiro, né? Como disse uma vez um autor de quadrinhos (fico devendo o nome, porque estou na dúvida entre dois), não culpo alguém querer vender seu produto como não culpo um tubarão por caçar, mas não se pode requerer realeza se o que você faz é qualquer coisa apoiada por um marketing massivo e, na sociedade de informação de rapidíssima validade, tão banal.

Dica: Num bom pagode, toca Samba e num bom samba toca Samba. Agora, um pagode-pop-de-pandeiro, bem, esse você não vê num Samba. Só nas rádios da moda, casas de show da moda e programas de TV da moda… Percebeu o padrão?

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Falando Nisso... e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s