Saudosa cadência bonita do Samba

E aí, minha gente, o que vocês acham dessa fase da música em que tudo precisa ser intenso demais, rápido demais e alto demais?

Vivemos tempos em que um samba ‘pra frente’ virou sinônimo de rápido e gritado. Repare que um cantor ou vocalista acaba sendo ovacionado quando dá um grito – coisa que quase sempre é desnecessário à dinâmica e mensagem da canção – e o que é pra ser bem cantado é tudo como cafona. Um bom exemplo disso é o samba de sambódromo, de carnaval. Já disse aqui que um dos elementos básicos para meu início de pesquisa cultural sobre a cultura negra, carioca e a raiz do Samba foi Candeia, pelo livro “Samba: Árvore que esqueceu a raiz”. Também já disse que além desse livro, Candeia se juntou a outros integrantes da Portela e escreveu um manifesto à presidência da escola que agregava elementos de fora da escola e até do carnaval, ali, marcou-se a mudança no andamento do samba-enredo e tudo mais até o que temos hoje. Quando lançou Lenda das Sereias – Rainha do Mar, em 1976, o Império Serrano emplacou um grande sucesso, mas o próprio reeditou esse samba em 2009, pasmem, muito mais acelerado. Isso também aconteceu com Aquarela Brasileira.

É fácil notar em qualquer âmbito a mudança dos tempos e das novas gerações. Hoje o mainstream está muito gritado e muito acelerado. Até nas músicas mais comerciais. Ao vivo, então, que o andamento sempre fica um pouco mais rápido do que em estúdio, vixe, vira uma mistura de hip hop com dance music. Não é à toa que tudo está tão parecido entre si, independente do gênero de referência. Se evidenciar a sanfona, vira sertanejo, se der uma tapa no pandeiro, pagode, e se tiver um tambor eletrônico, é funk na certa. Mas não é assim que a coisa fica nos lugares onde o samba tradicional é tocado e cantado. Sim, pode ser que uma música ou outra tenha uma releitura mais rápida, mas a cadência está lá, sacou? A melodia foi respeitada e dá pra cantar sem perder o fôlego ou ficar rouco entre um gole e outro.

Então, meus amigos, sempre que alguém vier com esse papo de “gosto de samba pra frente”, diga que a animação de uma boa roda de samba não está no andamento ou no volume, mas no coração. Aí, é quando até a música mais dolente de todas se torna um belo momento de comunhão e expressão dos sentimentos na arte. As vozes juntas é que fazem o volume do samba, não precisa gritaria, nem microfone. Exemplo disso? Nelson Cavaquinho! Dê um pulo na Pedra do sal ou no Centro Cultural Tia Doca e tente ficar parado com Juízo Final, sucesso consagrado na voz de Clara Nunes. Eu disse pra tentar, mas é um desafio que você pode perder feliz, eu sou um que não consigo não levantar o copo e cantar diretamente do peito “… quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer/O Sol há de brilhar mais uma vez…“. Isso empolga, tem cadência, melodia e uma letra maravilhosa. Se isso não é ‘pra frente’, reflita se você quer mesmo um pagode animado ou pular de bungee jumping.

Salve, salve, simpatia!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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