Negro é gente!

Tá, o título foi meio que preguiçoso e ao mesmo tempo um protesto sobre um tipo de afirmação que já deveria ser o ‘normal’ há uns 125 anos (porque estou sendo bonzinho e só considerando o racismo até 13 de maio de 1888, saca, o ano da maior mentira racial do Brasil?). Enfim, o que me trouxe ao teclado, dessa vez, foi uma questão delicada, delicada porque está tão introjetada pelo subconsciente, que igualmente (aí, sim!) negros e brancos levam pela mesma vertente do senso comum: A questão dos apelidos quanto a cor da pele, traços físicos ou textura dos cabelos.

macacobrancoepreto

Antes que alguém defenda que um branco também sobre preconceito quando é chamado de branquelo ou cabelo-boi-lambeu, digo logo, isso não é racismo, porque é como fazer piada com um gordo ou um deficiente, é a condição física e não a memória racial social que traz o ranço da visão escravagista para o presente. Não adianta querer dar uma de reacionário, dizer que é paranoia típica de um negro, ou que racismo não existe, isso tudo é uma besteira tão grande quanto fazer um comentário racista e dizer que foi só um comentário. Você pode estar sendo hipócrita, ou muito maldoso, mas é um ignorante também. E eu já fui assim, já fui egocêntrico, já achei que por minha situação bancada por mamãe e papai na classe média, estudando em instituições particulares que o racismo era só uma desculpa para uma suposta falta de esforço dos mais pobres. E porquê? Por que eu via o mundo da janela que me era conveniente, ou seja, eu pude, qualquer um pode. Nada mais feio, né?

Aí, eu fui crescendo e vivendo o racismo e classismo em situações que cheguei até a ficar acostumado. Sério, eu ia com minha turminha rock n’ roll para a Lapa, para o Heavy Duty, Garage, entre outros e sabe o que acontecia? Todos já sabiam que eu ia ser interrompido na minha conversa pra prestar informações a algum policial quanto a meu bairro de residência, local de partida e local de destino do passeio no coletivo. Sim, eu era o único negro do grupo. Sempre fui muito educado com os policiais que me interrompiam a música, a conversa ou somente a meditação da viagem, e alguns até foram educados também, fora os que tentaram me humilhar e levaram a devida resposta de um cidadão que tem muito boas noções de direito constitucional: Eu mesmo, para a fúria deles. Mas depois de um tempo, não aconteceu mais.

O que dói mesmo é ser revistado até quando estava com o crachá do trabalho, tendo o mesmo receio de ser vítima da criminalidade – mas por parte dos bandidos, né?  – que os outros e ser o único revistado, o único a passar pelo ônibus – arrumado pra uma festa ou um passeio – e ver pessoas agarrando bolsas, indo em direção ao meio-fio e essas coisas. Então, amigos, chamar um negro de macaco, como aquele senador italiano fez com Cecile Kyenge, primeira negra a ser eleita senadora na Italia – antiga parceira da Alemanha no Nazi-Fascismo e com resquícios disso lá, como temos cá até hoje – não é só uma piada, não é só um apelido. É como aquela página de Facebook diz: Racismo não é mal entendido, é crime.

 Cecile Kyenge, primeira mulher negra a ser ministra na Itália

Nascida no Congo, Cecile Kyenge é primeira negra a ser ministra na Itália.

Também não sei o que pensar bem sobre aquele vídeo de relativo sucesso no Youtube em que uma menina (branca) bem pequena chora porque queria ser negra. Não vou tecer opinião sobre o vídeo em si, já que está fora de contexto, e, não sabendo o que aconteceu até ela começar a chorar, não posso simplesmente embarcar numa possibilidade. Sou jornalista, preciso do factual pra repassar uma informação. Mas, divagando, e isso eu posso independente de minha formação, acho até bonitinho, mas – volto – a falta de um contexto, pode até prejudicar um debate. Não sabemos se ela está triste com alguma outra briga que teve o assunto resgatado, se aquilo não é uma piada de mau gosto, ou se, de fato, é uma simples menininha achando a cor negra bonita.

Mas isso levanta uma questão, no vídeo, a mãe pergunta o que poderia ser feito pra ela se tornar negra e a garota sugere que seja pintada, ms não nos olhos, só até em volta. O que é isso? Racismo. Sim! Black face sugerido IN YOUR FACE! De novo, aquela “piadinha” racista de que o negro assim o é por que sua pele é queimada ou pintada. Não se respeita a cor como uma quesstão de melanina, mas de superfície afetada, como se o normal fosse ser branco e o resto teria que ter um motivo pra ser “exótico”. Outra coisa, voltando ao caso da senadora italiana – na verdade, nascida na República Democrática do Congo – é a questão da aparência, voltando a um assunto, mas com o pé no mais recente, pois, se não somos comparados a uma superfície, somos estigmatizados como macacos, símios, primatas e essas coisas. Talvez, pelo ressentimento da sociedade que teve que eliminar a escravidão – mas não se escreveu muito sobre as diversas revoltas, principalmente na Bahia, os saques às fazendas e o clima de pavor que os senhores de engenho viviam até que a situação interna e externa – lembre-se, a pressão Inglesa em tornar o Brasil industrializado para formar relações comerciais. Talvez por isso e muito mais, o negro tenha sido classificado como inferior, como algo entre uma ferramente e um animal, já que servia para o trabalho pesado, era submetido a todo tipo de humilhação, mas pense, porque tantos senhores “pegaram” tantas escravas se não tivesse ali um desejo pelo corpo da mulher?Mesmo que de uma forma criminosa.

Mas o que eu ia falar é: Se você compara um negro a um macaco, lembre-se, existe macaco branco, cinza, amarelo, etc, etc, eu já disse na foto. E os pelos não são exatamente a cor da pele, né? Sempre imaginei um chimpanzé de pelo preto, com a pele branca por baixo, pra ironizar, pois, por exemplo, meu cachorro é assim. Pelo preto e pele branca… e aí? Qual a cor? Importa? Pra mim não. Tem gente branca de cabelo preto e negro de cabelo loiro, não tem? Tem gente de pele clara com cabelo crespo e negros com cabelos lisinhos e escorridos. Sobretudo no Brasil onde, eu falei, ocorreu um processo de miscigenação bem variado.

Mas, o pior é ver gente que divulga essa ideia – um artigo inteiro no Wikipedia – reforçando aquela visão preconceituosa de Zumbi como “aquele negro hipócrita que tinha escravos”. Ninguém para pra pensar que a história foi escrita pelo branco, pelo católico – se não a inquisição daria uma enciclopédia pra cada ano de história estudado – pela visão eurocêntrica e tals. A Princesa Isabel sai como a boazinha que um dia levantou, se espreguiçou ao som de pássaros e resolveu, por pura bondade, libertar os escravos, ao passo, que o feio negro Zumbi, só queria ser senhor de escravos. Falam do negro coo se fosse um só povo desunido – o que não justifica o racismo nem assim, mas depois a gente fala nisso – foram negociados muitos negros de tribos diferentes e misturados, justamente pra que as rivalidades internas não deixassem que formassem uma unidade ‘gigante’, assim como tribos indígenas apoiaram franceses, holandeses e portugueses conforme seus interesses. Assim como os próprios europeus lutavam entre si por territórios e locais a serem saqueados, como acabei de citar algumas nacionalidades rivais. Mas o negro é que é o desunido, o escravizador, fala sério, né? Nem continuo nesse tópico, porque é auto-explicativo o absurdo.

Agora, uma reportagem linda sobre uma iniciativa genial de um professor aqui do Rio de Janeiro pra conter a leviandade com que se propagam preconceitos através de apelidinhos e piadinhas.

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Divagações e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s