Samba negro povo

Ser negro é como ser sambista, não se escolhe, é uma identidade que você assume por se sentir parte daquilo (e não importa em nada a cor da pele), é uma ideologia que você abraça, tão logo perceba o lugar e as pessoas com quem você tem em comum. Não se vira sambista ou se assume negro por ostentação, por pose ou por dinheiro, esse tipo a gente vê de longe que está forçado, que está industrializado pra ficar parecido com “cara de povo” e povo não é ruim, pobreza não é demérito.

Ser negro ou sambista é algo que vem com amor à arte, à cultura e à história. É saber de tudo que houve de ruim e que calejou metade da popúlação brasileira, é combater o bom combate no debate quando tentam difamar o que é nosso, dizendo que os de fora é que têm razão, ou aceitando que “coincidentemente” os herois da nossa história e cultura seja estrangeiros ou governantes que nada fizeram senão usar o samba como ferramenta de manobra de ditaduras ideológicas que justamente queriam afastar nossa arte de nossa raiz.

Ser negro ou sambista pode até ser, como dizem, questão de auto-declaração, mas só quando se conhece a raiz do Samba, quando o foco vem desde a ancestralidade brasileira e suas ramificações anteriores é que se pode percorrer a linha do tempo e perceber que o Samba só agregou e aqueles que tentaram se aproveitar não se criaram, ao contrário de muito sambista que mal desceu dos morros nos carnavais e são baluartes de nosso cancioneiro, fizeram seu nome para os que entendem dos balacobacos.

Não se canta samba por cantar, se canta pra desabafar, pra comungar dos sentimentos da vida que se juntam ali e pairam sobre a roda formando aquela energia que todo mundo entende, mas ninguém sabe explicar. É pra sentir, o resto é consequência. Como diria Candeia, “Samba é verdade do povo, ninguém vai deturpar seu valor”, e não tente seguir a recomendação do mestre ouvindo em rádios, pois, a coisa é escassa – procure muito bem – o bom mesmo é estar lá, estar no lugar, ver as pessoas, perceber que todos são desconhecidos, mas se tratam como velhos amigos, a cordialidade e a alegria comandam as emoções.

Assim como a raiz negra do Samba, o próprio Samba já passaram por muita coisa, tentam, mas tentam substituir essa verdade por uma mais amena, mais suave, mais comercial, mas estamos aqui, independente da cor da pele, todos somos um pouco negros porque amamos o Samba, de tantos elementos do mundo, mas mulato, mestiço, caboclo, mameluco, cafuzo… Negro.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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