Sambas-enredo campeões do povo

Eu ia fazer uma lista com alguns dos sambas inesquecíveis da história que não chegaram a ser campeões, mas que ganharam a boca do povo por anos a fio sem fraquejar. Acabei percebendo que virou mais uma lista dos destaques de Império Serrano e União da Ilha do Governador, o que é sintomático, da minha parte, pois, são duas escolas que realmente significam muito pra mim historicamente e pessoalmente. Mas, vamos ao assunto… opa, peraê, antes, eu vou citar duas menções honrosas: A Lenda das Sereias, Rainhas do Mar, Cinco Bailes da História do Rio. O primeiro samba, 7º lugar em 1976 e 12º na reedição de 2009 sempre é lembrado em momentos de carnaval ou rodadas de sambas-enredo em shows e ocasiões similares. Já o segundo, é o vice-campeão de 1965 e primeira composição a ter Dona Ivone Lara participando da composição, o que significa a primeira composição a ter uma mulher no carnaval. Vamos à lista e, digo logo, não estão exatamente em ordem de importância, como eu disse, todos significam muito pra mim na questão cultural e, sobretudo, na memória afetiva da infância lírica de carnavais de subúrbio, com ruas fechadas, bate-bola (quando não era tão mal visto) e correria em torno do coreto seguido de assistir desfiles comendo pizzas e cachorros-quentes e essas coisas.

5 – É Hoje
Pra começar a minha “lista oficial”, É Hoje é um clássico que ainda é muito cantado e tocado, Monobloco tá aí que não me deixa mentir, e tem todo o clima de otimismo e festança que um desfile de escola de samba deve ter, aliás, a União da Ilha do Governador, na verdade, é uma campeã nesse ponto, se fosse quesito, figuraria entre as grandes da história não só pela animação, mas por levantar a galera. Mas, apesar da letra positiva (sem ser ufanista, diga-se) e da melodia “pra cima”, a escola só conseguiu um honroso 5º lugar em 1982. O curioso é que sua reedição pela mesma escola em 2008 ficou no mesmo 5º lugar de classificação. Mas a composição de Mestrinho e Didi ainda é um dos sambas mais populares do carnaval e fora dele.

4 – De bar em bar, Didi um poeta
O Procurador Federal e advogado Gustavo Adolfo de Carvalho Baêta Neves, morto em 1987, aos 52 anos, escreveu pelo menos uns 22 sambas-enredo (inclusive cedendo a autoria a outros compositores), foi autor de O Amanhã (1978) – outro clássico não campeão da avenida – e do já citado É Hoje (1982). Chegou a vez de ser homenageado, por Franco, com uma canção que fica justamente à altura do homenageado e sua obra. Fala sério, é ou não é de querer sair pelas ruas cantando, dançando e… bebendo – pra quem bebe – ? “Eu vou tomar um porre de felicidade…”. Sabe onde a joia do carnaval foi parar na classificação em 1991? 9º lugar. Não tô dizendo…

3 – Festa Profana
Essa é mais uma clássica música de carnaval. Se você consegue achar blocos e estabelecimentos que toquem canções mais tradicionalistas de carnaval (sabe, quando não entra eletrônico, rock ou funk? Eu até respeito, mas prefiro o velho barzinho/coreto), essa é obrigatória… Literalmente, pois, ela avisa que “o rei mandou cair dentro da folia” e, como sou um folião disciplinado, eu completo “e lá vou eu” pra “tomar um porre de felicidade”. Mesmo com toda essa alegria e levantando a Sapucaí, sabe qual foi o resultado? 3º lugar. Foi tão equilibrado, que isso foi só um ponto atrás da campeã daquele ano de 1989, Imperatriz Leopoldinense.

2 – Aquarela Brasileira
Este é um belíssimo exemplar de samba-exaltação, na verdade, ele é uma homenagem a Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. É um dos mais belos sambas já composto e quase que obrigatório em rodas de samba e pagodes da vida, nem que seja lá naquela rodada final pra terminar com agito e gostinho de ‘quero mais’. Aliás, ainda é muito regravado – vide Zeca Pagodinho e seu DVD mais recente, Vida que Segue. O fato é que Silas de Oliveira nos proporcionou uma obra prima de linda letra e melodia rara em 1964, mas seu petardo só conseguiu um 4º lugar. 9º lugar se você estiver pensando na reedição de 2004, quadragésimo aniversário do clássico. 40 anos em 2004, quantos sambas são lembrados assim, com essa longevidade, amigolhes?

1 – Zaquia Jorge, Vedete do Subúrbio, Estrela de Madureira
Deixei esse pra citar por último – porque falarei mais do assunto em breve – mas também porque, ao contrário dos sambas citados até o momento, esse não tem cara de samba-enredo, digo, não é agitado ou mesmo “carnavalesco”, na verdade, ele parece mais uma declaração… e é! Foi um samba que não foi campeão, ficou em 3º lugar, no carnaval de 1975. O samba não foi tão aclamado assim em termos de carnaval, mas, o outro samba, o que foi preterido pelo que está no vídeo, ainda internamente, esse sim, que Roberto Ribeiro pegou e gravou-o com o nome resumido de ‘Estrela de Madureira’, aí sim, a “tal” música se tornou um clássico, um dos sambas mais belos, sobre uma história linda, da vedete Zaquia Jorge – já disse que volto a falar dela futuramente – e, ironicamente, um verdadeiro hino da escola da Serrinha, coisa que o samba que disputou o carnaval não viu. Fique com a gravação original…

Agora, fique com a canção eternizada por Roberto Ribeiro, o que nem foi pra avenida, mas ganhou nossos corações (Óun, que bonitinho!):

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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