Opinião – Resistência Cultural

Vamos começar pelo Zé Quietinho… Como assim, nãozeketi sabe quem é? José Flores de Jesus, o famoso Zé Kéti (nome artístico que veio de um apelido ‘telefone-sem-fio’ de quieto, quietinho… KÉTI), nascido em 16 de setembro de 1921 (tendo sido registrado somente em 6 de outubro, segundo Nei Lopes) teve participação fundamental num dos momentos mais marcantes da nossa cultura… ou eu deveria dizer CONTRA-cultura?

Sim, Zé Kéti compôs Opinião e esta canção foi gravada por Nara Leão. A canção foi o início de uma peça musical (estrelada pelos dois artistas supracitados) e renomeou o antigo Teatro de Arena. O, agora então, Teatro Opinião se tornou um foco de resistência cultural em plena ditadura militar. Começou em 1964 (ano do golpe descaradamente disfarçado de revolução) e foi até 1982 (para o Grupo Opinião) e comportou ainda o Noitada de Samba (1978-83), espetáculo que representou – assim como o todo da ideologia cultural, motivada pelo Centro Popular de Cultura da UNE – um foco de resistência simbólica e fatídica.

Opinião é muito mais que uma música ou uma sequência de eventos, representou o Samba descendo de volta do morro e se mesclando à nova e pulsante MPB. Não mais canções em troca de trocados (?!) ou cachaça (é bom, mas não é o valor da obra). Agora, existia uma união sincera entre cantores dos lados do asfalto, como Beth Carvalho, então novata, Clara Nunes, que encontravam com Dona Ivone Lara, Nelson Cavaquinho e Cartola. Composições feitas de um lado eram gravadas pelo outro e surgiram parcerias que nos brindaram com petardos do cancioneiro popular para sempre. O início coincidiu também com o início de outros nomes que se mostrariam grandes apartir dali, como João Nogueira e significou um novo fôlego a quem havia sido relegado ao ostracismo nas décadas anteriores, como o próprio Cartola, que havia feito sucesso como compositor antes, mas desde a projeção do samba-canção, bossa nova e – naquele momento específico – a jovem guarda, amargava o esquecimento da massa.

O fim do marco Opinião também foi marcado pelo fim de uma geração que se dispersou de um modo ou de outro. Na década de 1970, foram-se Pixinguinha, João da Bahiana, Donga e Ismael Silva. Ainda iria Candeia e, na década seguinte, Clara Nunes – pra citar alguns – marcando também os novos tempos com o fim de um movimento cultural que dificilmente vai se repetir, dado o franco processo de globalização que tende a miscigenar gêneros e comercializá-los para um público cada vez mais imediatista e hedonista, resultando em uma busca incessante pela novidade e pelo efêmero, deixando a raiz de lado. Pode parecer pessimista, mas eu sei que ainda existem os “Opiniões” da vida, assim como existem repetições como farsa desse intento. Muitos lugares apenas usam rótulos para lucrar e tocariam Galinha Pintadinha de madrugada para marmanjos bêbados e pegadores, mas há aqueles locais onde podemos curtir um brincadeira, cantar de olhos fechados e cabeça erguida.

Cada um com um exemplar do belo livro Noitada de Samba – que me ajudou muito nos tempos de facul, quando ganhei de uma professora – estão Leonides Bayer e Jorge Coutinho, da esquerda para a direita.

Agradecimentos a Zé Kéti, Nara Leão, João do Vale, Oduvaldo Vianna Filho, Maria Bethânia, Millôr Fernandes, Jorge Coutinho, Leonides Bayer, Cartola e tantos outros que estiveram envolvidos com os espetáculos sediados e presenciados pelo Teatro Opinião. Sem esses expoentes das décadas passadas, talvez estivéssemos mais ainda mais colonizados pela música pop internacional (que eu até gosto, mas não tem valor cultural, pelo menos pra mim). Obrigado por assegurarem o futuro da memória de nossa cultura, de nosso Samba. Fique com a explicação do próprio Zé Kéti sobre o Opinião.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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