Racismo: O estigma do negro

Racismo (14/5/75)

Por: Luis Fernando Verissimo

 

– Escuta aqui, ó criolo…

– O que foi?

– Você andou dizendo por aí que no Brasil existe racismo.

– E não existe?

– Isso é negrice sua. E eu que sempre te considerei um negro de alma branca… É, não adianta. Negro quando não faz na entrada…

– Mas aqui existe racismo.

– Existe nada. Vocês têm toda a liberdade, têm tudo o que gostam. Têm carnaval, têm futebol, têm melancia… E emprego é o que não falta. Lá em casa, por exemplo, estão precisando de empregada. Pra ser lixeiro, pra abrir buraco, ninguém se habilita.

Agora, pra uma cachacinha e um baile estão sempre prontos. Raça de safados! E ainda se queixam!

– Eu insisto, aqui tem racismo.

– Então prova, Beiçola. Prova. Eu alguma vez te virei a cara? Naquela vez que te encontrei conversando com a minha irmã, não te pedi com toda a educação que não aparecesse mais na nossa rua? Hein, tição? Quem apanhou de toda a família foi a minha irmã. Vais dizer que nós temos preconceito contra branco?

– Não, mas…

– Eu expliquei lá em casa que você não fez por mal, que não tinha confundido a menina com alguma empregadoza de cabelo ruim, não, que foi só um engano porque negro é burro mesmo. Fui teu amigão. Isso é racismo?

– Eu sei, mas…

– Onde é que está o racismo, então? Fala, Macaco.

– É que outro dia eu quis entrar de sócio num clube e não me deixaram.

– Bom, mas pera um pouquinho. Aí também já é demais. Vocês não têm clubes de vocês? Vão querer entrar nos nossos também? Pera um pouquinho.

– Mas isso é racismo.

– Racismo coisa nenhuma! Racismo é quando a gente faz diferença entre as pessoas por causa da cor da pele, como nos Estados Unidos. É uma coisa completamente diferente. Nós estamos falando do crioléu começar a freqüentar clube de branco, assim sem mais nem menos. Nadar na mesma piscina e tudo.

– Sim, mas…

– Não senhor. Eu, por acaso, quero entrar nos clubes de vocês? Deus me livre.

– Pois é, mas…

– Não, tem paciência. Eu não faço diferença entre negro e branco, pra mim é tudo igual. Agora, eles lá e eu aqui. Quer dizer, há um limite.

– Pois então. O …

– Você precisa aprender qual é o seu lugar, só isso.

– Mas…

– E digo mais. É por isso que não existe racismo no Brasil. Porque aqui o negro conhece o lugar dele.

– É, mas…

– E enquanto o negro conhecer o lugar dele, nunca vai haver racismo no Brasil. Está entendendo? Nunca. Aqui existe o diálogo.

– Sim, mas…

– E agora chega, você está ficando impertinente. Bate um samba aí que é isso que tu faz bem.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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2 respostas para Racismo: O estigma do negro

  1. L. Guerra disse:

    Texto forte, e incrivelmente realista. Muito bom!

  2. isto mesmo e mais um pouco,o cara foi racista e preconceituoso o tempo todo e se fazia de otário já passei muito por isto!

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