O Samba e a censura

É interessante pensar que em vários momentos o Samba esteve às voltas com a ditadura. O sambista tinha que aderir ao ufanismo besta pra poder ser aceito como cultura e passar pela censura pra poder desfilar e ser ouvido. Wilson Batista, por exemplo, cantava sobre aquela malandragem clássica, do descendente de escravos que não queria trabalhar e continuar “no miserê”, ele sabia das coisas e preferia não seguir o sistema. Mas isso iria contra o Estado Novo, a figura desse tipo de malandro precisaria acabar pra que o capitalismo pudesse ter uma chance. Imagina só, o Brasil, uma recém-república capitalista lambendo botas estadunidenses e combatendo comunistas como se fossem os próprio yankees, e vem um negão lá da Lapa cantar que debocha do trabalhador – que gera a máquina financeira deles – enquanto bebe, ama e joga nas barbas do governo!

Getúlio Vargas e seu Estado Novo vieram com a proposta de elevar o Samba ao patamar de cultura '"oficial" do Brasil, mas não foi exatamente como sua raiz, e sim, um pretexto para a propaganda chegar às classes mais populares.

Getúlio Vargas e seu Estado Novo vieram com a proposta de elevar o Samba ao patamar de cultura ‘”oficial” do Brasil, mas não foi exatamente como sua raiz, e sim, um pretexto para a propaganda chegar às classes mais populares.

Engraçado, que nessa época a classe média já se fazia partidária do governo, de aceitar feliz as determinações da elite. Exemplo disso foi a clássica polêmica entre Noel Rosa e o próprio Batista. Claro, Noel leva uma vantagem hoje, pois, ficou muito mais popular no subconsciente cultural, talvez o fato de ter morrido tão jovem tenha deixado-o com um quê de lenda, pois, diferente de Batista, não amargou velhice e decadência na carreira. Foi-se cedo e o que deixou foi muito bonito e/ou inteligente. Bom com as palavras, Noel respondeu que o malandro de Lenço no Pescoço era mesmo um Rapaz Folgado e aconselhou-o a largar de mão a navalha, o tamanco e ir procurar um trabalho. Ou seja, nos tempos de hoje, Noel poderia ser um feliz sambista classe média e Wilson Batista poderia ser um “Bezerra da Silva” da vida, certo? Errado.

Acontece que o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), órgão censor do governo Vargas, apertava o gargalo do que iria – ou não – para as rádios e desfiles. Assim, ao mesmo tempo que a classe média começou a ter acesso ao Samba pelas rádios – até então, de conteúdo educativo e erudito – mas o Samba que o governo queria, amansado, domesticado. Ou se falava do passado glorioso (?!) do Brasil ou se falava das maravilhosas belezas naturais. Claro, o amor era tema recorrente e esse não teve muitos problemas, mas o que pegou foi que Wilson Batista, assim como vários outros, aceitou o cabresto. Por ter tido uma outra música aceita para a distribuição fonográfica, Batista mudou a letra de Bonde São Januário “em gratidão”. Sintomático o fato de ele ter trocado “o Bonde São Januário leva mais um otário…” para “o Bonde São Januário, leva mais um operário…”. A letra deixa de ser irônica e passa a ser literalmente uma peça da propaganda do Estado Novo, pois, vindo de um representante das classes mais pobres, teria muito apelo junto ao grande público.

A música em si é muito boa, animada e cadenciada, do jeito que o Samba gosta, mas não foi coincidência, o outrora porta-voz da catarse malandrística (hein!?) ter seguido o conselho de Noel (na prática), pois, duvido muito que uma música tão desafiadora passasse pelos censores do DIP. Mas, de certa forma, se não fossem essas brechas, sabe lá onde o Samba estaria, talvez tivesse ficado na marginalidade, talvez tivesse se transformado em um produtinho vago, ou numa peça folclórica, cantada apenas em momentos peculiares, como o carnaval.

Mas houve mais um momento de malandragem chuchu-beleza. Moreira da Silva, que também defendia o malandro pobre, mas sao, do morro ou das áreas mais carentes da cidade. Ele cantava o malandro que andava de terno pra ser elegante e não dar vazão a comentários, mas seu terno elegante era estrategicamente modificado em medidas-padrão pra que não atrapalhasse os movimentos na hora do ‘pega-pra-capar’. A perseguição a tudo que representava o negro continuava, e o Samba teve que correr pro morro (depois falo mais disso), assim, também se iniciava uma batalha ferrenha contra quem destoava da política de trabalho para pobre para ser um pobre nobre e honrado (mas pobre). O malandro era tão irônico que cantava na cara do governo que era trabalhador e que andava em dificuldades financeiras (viu, não é de hoje). Perceba em Vara Criminal (Moreira da Silva) que ele é intimado a comparecer na vara criminal e tem um caso complicado de gandaia. E, ao final, ele diz ‘trabalhador mais é que tem valia’, expressão bem comum quando se estuda economia política e marxismo, pois define que o pobre trabalhador é a força de trabalho explorada, como a uma ferramente, portanto deve, em termos gerais, continuar em seu status quo de pobre pra que sempre precise trabalhar e começar o ciclo todo.

Seria como se queixar, por sarcasmo, das coisas que você teve que fazer sob promessas mentirosas de uma vida melhor e honrada, enquanto os que mais trabalhavam permaneciam mais pobres, sobretudo o negro. Daí, possivelmente, a grande quantidade de músicas falando em sonhos de uma vida de riqueza, ou de malandragem valente e intocável. Sabe, o fenômeno da catarse, quando você projeta em algo ou alguém aquilo que você gostaria de ter ou fazer? Nesse caso, todos falavam em ser malandro, mas ninguém era, de fato. Era só um jeito de desabafar a insatisfação, deixando claro um clima de “apesar de você…”, que, felizmente o Samba sempre soube manter. Um modo de sobreviver livre na mente, mesmo que com os grilhões da censura a apertar as mãos que escreviam e amordaçando as bocas que cantavam a vida simples do negro pós-escravidão. Uma atitude interessante, assim como o número de Sambas na ditadura militar, que referenciam o tema ‘liberdade’. Seria mais um fenômeno de catarse? Mensagens subliminar? Enfim, depois eu falo mais nisso.

Por enquanto, Lenço no Pescoço do Rapaz Folgado:

Essas foram as primeiras peças da grande polêmica que gerou alguns dos melhores momentos de Noel, principalmente, mas, a grande verdade, é que eles nunca brigaram, era só uma troca de ironias entre colegas de diferentes realidades.  

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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4 respostas para O Samba e a censura

  1. Maria disse:

    Oi, qual a origem dessa charge do pandeiro na ratoeira?

  2. Carlos José Correia de Souza disse:

    Olá! Sua charge foi muito criativa! A pessoa vestindo a faixa do Estado Novo é a personificação desse regime ou é alguém que fazia parte dos quadros do governo?

    • Obrigado! A ideia é essa mesma, do Estado Novo se apropriando da cultura popular pra se paroximar do povo. Tentei dar uns contornos bem genéricos, mas confesso que me espelhei no próprio Getúlio Vargas como referência inconsciente. abçs

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