O Escurinho e a Escurinha

Autos do processo

Confusão protagonizada por casal de negros gera rebuliço no Rio de Janeiro e já é um dos maiores escândalos dos anos ‘50. O repórter das  crônicas do nosso cotidiano, Geraldo Pereira, nos deu detalhes.

Conhecendo os envolvidos

Primeiro, é preciso conhecer os personagens dessa história de ação, romance e crítica social. O Escurinho era um escuro direitinho, porém fora preso e voltou com fama de brigão. Por algum motivo, o, outrora, pacato cidadão se tornou um impulsivo retrato do pouco caso com a população carcerária que retorna à sociedade sem uma base de assistência social por parte do governo. Ele conheceu uma escurinha, apaixonou-se, mas ela não deu sinais de correspondência a esse tão forte sentimento.

Impressões

O Escurinho ganhou fama de brigão, arrumou intrigas e conflitos em diversos lugares por onde passou, mas isso só pode ter a ver com um fato grave: Ser chamado de Escurinho. Parece que o rapaz não gostou nada de ter sido chamado assim num dos sambas que frequentava nas regiões próximas à Praça XI, região central do Rio de Janeiro, capital da República, e reduto do Samba. Na briga, com a intervenção da polícia, todos foram levados à delegacia, mas só o homem ficou detido, por ser frequentador de rodas de partido alto, ou, seja, um autêntico contraventor.

Após dois dias “acalmando os ânimos”, segundo o delegado, ele foi posto em liberdade e retomou sua vida. Mas acabou se engalfinhando com a mulher do Zé Pretinho, malandro colega de copo do Escurinho, porém rival pacífico na arte de conquistar as cabrochas e pastorinhas dos sambas entre o bairro do Estácio e a Mangueira.

Ele conheceu uma bela mulher num de seus passeios pela cidade, mas ao ser chamada de Escurinha, ela também não gostou e foi tirar satisfações. Discutiram e ele ficou falando sozinho, mesmo após promessas de uma boa vida de bamba e boemia. Ainda com ressentimentos pelo tratamento dispensado, descontou a raiva no tabuleiro de Sabina, uma verdadeira baiana que vendia frutas próximo à Praça XV, apenas porque a mulata dos quitutes não lhe concedeu umas laranjas fiado.

Enquanto a sociedade ri dos dois como se brigassem por coisas pequenas, os relatos dão conta de que o que eles queriam era dignidade e reconhecimento de sua condição de negros, com personalidade e não conotações acerca de sua cor de pele, como se o normal fosse ser branco e a pele negra assim o fosse por questão de sujeira ou queimadura. “É melanina carioca! É identidade”, bradou convicto um popular que observava a narração dos fatos. “Escurinho é um canto sem luz”, gritou uma senhora num tom inflamado.

O fato é que o juiz era branco e de classe bem abastada, não reconheceu sua luta por respeito nem os motivos de seus atos, apenas no que resultaram. Condenou o Escurinho por baderna e o proibiu de frequentar o Morro da Formiga (Tijuca), Morro dos Macacos (Vila Isabel) , Morro dos Cabritos (Lagoa/Copacabana) e o Morro do Pinto (Santo Cristo). Ele agora só pode sair de Mangueira para trabalhar em serviços comunitários e sob a supervisão de dois fiscais da condicional (porque só um não daria conta em caso de acesso de fúria diante de alguma das muitas “piadas” que são lançadas aos ‘escurinhos e escurinhas’ do Brasil o tempo todo). A Escurinha foi liberada sob recomendações.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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