Globeleza Fantástica

Quando da divulgação de nossa Carta Aberta ao Racismo Velado na página Mundo Negro, no Facebook, dentre os diversos compartilhamentos e visualizações, um comentário em especial me chamou à atenção. Era de um internauta (negro) indignado com nossa posição acerca do referido quadro do Fantástico e a reação irritadiça de que nossa visão seria “equivocada”. O argumento foi que a TV só está refletindo a realidade, que se quisermos mudanças, que as cobremos “aqui fora”, na vida real, na educação, etc e não no mundo de fantasia da TV aberta.

Bem, pra mim, em particular, equivocada é essa visão de “a TV é só ficção, não tem culpa pela realidade”, pois, uma mídia que movimenta milhões em influências e interesses não é, nem nunca será, isenta de uma ideologia, mesmo que seja a dos investidores da elite. E a ideologia da Rede Globo é elitista, finge que quer agradar a todos, mas seu pulo do gato é justamente ter programado o povo a aceitar seu conteúdo sem questionar se aquilo é bom ou não, simplesmente ‘fazendo bem feito’ não deixando margem para a observância sobre a procedência desse conteúdo.

Pode até ser implicância, mas não há negras escolhidas com traços negros, saca? O cabelo, o nariz, tudo muito folclórico e muito diluído.

Aí, vem a grande virada na argumentação. Falei lá sobre a questão, que não é querer ver a Globo criando uma realidade que não existe aqui fora, mas que preste ao menos algum serviço útil nessa área. Argumentei que as novelas – alegadas peças de ficção – já ajudaram a desmistificar o tráfico de pessoas, vício em entorpecentes, crianças desaparecidas e mais uma gama de questões delicadas na sociedade. Só o raio do racismo é que não tem essa divulgação. Então, é sim, um desserviço à sociedade manter o negro ignorado e negado na telinha. Estamos bem até aqui? Prossigamos…

A Globo vem, através do Fantástico (ele de novo, estamos de olho!), buscar sua nova mulata negra Globeleza. Um concurso onde as candidatas – todas negras – disputarão o posto de musa do carnaval platinado. Aí, algum amigo mais branquinho, ou um irmão menos atento poderá dizer: “viu? Ficaram reclamando aê, olha só um quadro só com pessoas negras participando”. Sim, mas vou te perguntar uma coisa: “Você é o Walcyr Carrasco?” “Já reparou que é só para 20 dias de carnaval e nada mais até a outra temporada?”.

Pois bem, a Globo, descaradamente, mostra onde o negro precisa ficar enfiado (UIA!) o ano inteiro, né? Fica lá se refestelando em paetês em frente às câmeras do bundalelê dentro da senzala Esquenta e depois vai ficar saracoteando sob a vinheta famosa do carnaval. Afora isso? Um ou outro papelzinho na TV e quase nada de negros sendo mostrados em posições bem sucedidas, na vida real, para que o público perceba que um negro vencendo na vida não é algo estranho.

Um quadro muito parecido com o da busca pela Globeleza é o Menina Fantástica, concurso para a descoberta e contratação de uma nova modelo. Nesse, quase não há negras e nenhuma chegou lá, com exceção de Tayna Carvalho (com seus belos traços indígenas – mesmo assim, muito criticada com aberrações como “ganhou por cota, pra Globo fazer média”, demonstrando que se não for branca e de traços finos não poderia ganhar por beleza). Perceberam a diferença do teor dos quadros? Se é estereótipo de carnaval, aí sim, negras venham com sede, mas se for modelo internacional, bem, não falo mais nada…

Finalistas do Menina Fantástica. Tayná, a vencedora de 2010 é a quarta da direita para a esquerda. Notou o padrão de beleza e a minoria num concurso brasileiro?

Aliás, falo, pois, mesmo que a posição do negro no carnaval seja aprisionada pela mente tacanha da grande mídia num estereótipo de inversão de valores (quando aparece em muitos outros lugares, mas sempre lembrando que são ‘comunidade’), as moças – muito belas – escolhidas para o cargo sempre são de cabelos alisados, narizes afilados e lábios finos… Ou seja, são como a Tempestade, dos X-Men (e tantos outros personagens de HQs), são “brancos de cor”. Nada contra os irmãos e irmãs com traços finos (nem pensem nisso), mas estou falando que não há outro tipo de biótipo negro ‘aprovado’ para a telinha, entende? É só ver como a própria Menina Fantástica 2010, Tayna Carvalho passou de paraense para japonesa em dois tempos.

Ainda acha que é exagero MEU – e não do descaramento da TV aberta/racismo velado?

Veja as fotos abaixo e associe ao momento e conclua por si só, se não tem relação com a visão folclórica da elite sobre o pobre e o negro:

Menina Fantástica, de onde sai uma nova modelo profissional contratada:

Nova Globeleza, quando uma modelo/bailarina representa as vinhetas oficiais do carnaval da Globo:

Musa do Brasileirão, quando uma modelo representa um time de futebol em ensaios sensuais:

Musa do Caldeirão, uma modelo será eleita a melhor passista no carnaval do Huck:

Então, meu cumpadi, coincidência? O negro e a negra será sempre esse ‘bom selvagem’ que surge no carnaval tirando onda de bacana pra voltar ao resto do ano escondido da mídia? Há quem diga pra nos contentarmos, pois seria pior não ter representação nenhuma, mas a luta não é por presença, é por reconhecimento de igualdade e dignidade. Lembrando Candeia em Dia de Graça, a Globo manda o recado:

“(…) mas depois da ilusão, coitado, negro volta ao humilde barracão“. 

Eu já prefiro a parte:

“(…) faça da sua Maria, uma rainha todos os dias e cante samba na universidade

e verás que teu filho será príncipe de verdade

Daí, então, jamais tu voltarás ao barracão“.

Tá bom pra você?

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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10 respostas para Globeleza Fantástica

  1. O rótulo que a mídia gosta de vender de brancas como símbolo sexual e pretas como objeto sexual, é tosca. A exploração do corpo negro é tão evidente, que enoja a forma que as pessoas tratam com naturalidade aquilo que nos atinge diretamente.

    Mais uma vez, lindo litros com seu texto. Humor inteligente com boas doses de reflexão é o que há! Parabéns pela militância!

  2. Luciene Pereira Vital de Oliveira disse:

    Belíssimo texto!!!Expressa exatamente a visão que tenho sobre as intenções da citada emissora que poderia sim usar seu poder , enquanto formadora de opinião, para trazer à baile este tema historicamente mascarado no Brasil que é o racismo e a teoria do branqueamento.Por trás de uma suposta abertura para aparição do negro,está um sub-texto de inferioridade intelectual e cultural.Aos olhos desavisados pode parecer uma chance de ascensão negra mas o pano de fundo de limitação étnica está presente mantendo o negro no lugar onde acreditam que deve permanecer.Lamentável!!!Temos que continuar denunciando essa exclusão disfarçada que subestima nossa percepção racional.Temos muito mais do que samba e futebol para oferecer.

  3. LÚCIO disse:

    SE EU TIVESSE UM BLOG, ESTAS SERIAM MINHAS PALAVRAS E MEU PENSAMENTO…

  4. Laura Souza disse:

    É deplorável a situação vexatória a que a mídia reduz a posição e situação da mulher negra!!! É um “mero” reflexo da visão real das pessoas de nossa sociedade brasileira??? Pode ser. Infelizmente parece que é isto o que acontece…

  5. Celia Lima disse:

    Belíssimo texto propondo uma reflexão à nossa realidade . Infelizmente ainda se percebe tanto preconceito, dúvidas acerca da integridade do negro quando ele chega a um certo grau de escolaridade, conquista profissional e por aí . Vivenciando uma situação de ‘beleza negra’, uma amiga me diz que a coisa mais difícil neste país é comprar maquiagem para “peles negras “! -Mas como, menina !? Um Brasil com uma margem de população negra tamanha, algo que seria tão fácil de se achar, não se encontra ????????? Por que será ?
    P.S. À propósito ela compra “os makes ” por encomenda feita a amigos que viajam (USA) !
    E as belas meninas negras que não possuem condições para tal ?

  6. Marcos disse:

    Boa sua colocação a respeito, porém o que discordo é que vocês centralizam o problema somente na rede globo. Racismo acontece, infelizmente, no mundo inteiro. Importante é sentir que somos todos humanos, independente da cor, e todos somos belos pela criação da natureza. E a escolha para apresentar a mulher ou o homem numa emissora, fica a critério de cada uma. Hipocrisia seria as emissoras começarem a colocar negros com perfis grossos só para querer mostrar “não ser racista”. Enquanto tiver consciência negra, o racismo nunca vai acabar, pois sempre haverá uma certa cisão entre as raças. O correto é Consciência Humana, aí sim acredito na união. Desculpe a quem discorda, mas essa é minha opinião.

  7. J. disse:

    Concordo com boa parte do texto. A espetacularização existe para todas os grupos sociais de mulheres, mas sobre as mulheres negras (pretas e pardas) há a limitação de um tipo singular de espetacularização significado no carnaval. E não me entendam mal: adoro carnaval. Mas minha profissão é de historiadora. Não obstante, gostaria que retirassem esta parte do texto que considerei ofensiva: “Pode até ser implicância, mas não há negras escolhidas com traços negros, saca? O cabelo, o nariz, tudo muito folclórico e muito diluído.” Ofensiva porque sou negra e me reconheço desta forma assim como milhares de negras que por seus traços mais europeizados teriam uma vida “mais fácil” se alisassem seus cabelos ou buscassem qualquer outro tipo de embranquecimento. Mas por termos consciência de que nossa mestiçagem não nos absolve nem nos livra do racismo porque ter que se embranquecer é racismo; Ainda, por posicionamento político escolhemos ser negras. Até porque não nos restaria outra escolha que não um limbo que em nada nos favoreceria ou a qualquer outro sujeito humano da face da terra. A fala que destaquei nos lança justamente neste limbo que me refiro definido não pelo ser, mas pelo “não ser”. Nossos traços “menos negros” nos facilita a vida? Eventualmente, poderia. Mas não quando tomamos a decisão de sermos negras. Não quando somos obrigadas a ler tamanha falta de respeito em um site da web que deveria nos defender. Escolhi há muito tempo ser negra, nunca me embranqueci. Defendi que deveríamos aceitar a mestiçagem como um elemento diferenciador na luta, mas perdi. Portando, não posso ser condenada pelos traços que tenho na face, legados pela minha mãe, por adeptos da causa negra. Aguardo um sincero pedido de desculpas e a retirada do comentário que nega minha negritude como se eu fosse menos vitimada pelo racismo que vocês. Ou bem defendem os negros (pretos e pardos) ou admitem que nós “pardos” estamos do lado de fora desta luta sendo-nos legado sempre desconfiança e a noção equivocada de que sofremos menos racismo. Enfim, senti-me ofendida e considero o comentário racista. Tão racista quanto a busca eterna pela globeleza e a negação de nossa capacidade para sermos outras coisas. No julgamento da largura do meu nariz, a Globo foi mais honesta.
    Saudações,
    J.

  8. satiel jose disse:

    Belíssimo texto!!!Expressa exatamente a visão que tenho sobre as intenções da citada emissora que poderia sim usar seu poder , enquanto formadora de opinião, para trazer à baile este tema historicamente mascarado no Brasil que é o racismo e a teoria do branqueamento.Por trás de uma suposta abertura para aparição do negro,está um sub-texto de inferioridade intelectual e cultural.Aos olhos desavisados pode parecer uma chance de ascensão negra mas o pano de fundo de limitação étnica está presente mantendo o negro no lugar onde acreditam que deve permanecer.Lamentável!!!Temos que continuar denunciando essa exclusão disfarçada que subestima nossa percepção racional.Temos muito mais do que samba e futebol para oferecer

  9. ALEX disse:

    EXCELENTE OPINIÃO, E ISTO MESMO NA GLOBO E NO BRASIL ESTE RACISMO VELADO.
    ESTA DISCARAÇÃO DE RACISMO QUE A GLOBO E OUTRS EMISSORAS FAZEM

  10. Thiare Lima disse:

    Muito bom o texto! Gostaria também de ver abordados os outros canais, (band, sbt record) e sua opinião sobre eles! Obrigada.

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