A Raiz do Samba em Foco

Desenho meu usado para ilustrar o projeto gráfico que fiz durante a produção da monografia.

Desenho meu usado para ilustrar o projeto gráfico que fiz durante a produção da monografia.

Eu já tinha, desde 2007 o www.garciarama.blogspot.com para destilar minhas opiniões acerca de questões filosóficas, sociológicas e antropológicas do comportamento humano. Tudo em tom de divagação, como diz o título daquele blog. Também já prestei serviços em forma de colaboração para outros sites, em paralelo, e cheguei até a ter minha própria coluna num site de São Gonçalo (município da região metropolitana do estado do Rio de Janeiro). A faculdade, porém, me exigiu um precioso tempo de pesquisa para um projeto gráfico e o próprio TCC, então juntei o útil ao agradável (e ao obrigatório da grade, Rá!) e iniciei uma pesquisa para os dois sobre o mesmo tema: Samba. A princípio, seria o Samba enquanto cultura e só. Isso porque eu tinha lido umas coisas, como “pegada pop”, relacionadas a samba/pagode e mesmo entendendo que era uma vertente comercial, fiquei inquieto pra poder defender que isso de ‘pop’ não era a arte e sim, um produto. Daí, como dizia minha orientadora, trabalho de pesquisa é algo muito orgânico, você não sabe exatamente no que vai dar, porque pode pintar um dado interessante que, talvez, até mude o rumo de tudo

Para isso, eu vi que precisaria remexer no que levou a essa tal ‘pegada pop’. Fui fazendo uma regressão, e quanto mais eu cavucava o passado do Samba, mais chegava à conclusão de que precisava voltar às origens. Só quando encontrei a raiz do samba, pude entender que a história convencional, na escola, nos é contada de forma muito superficial, muito linear. Assim, não dá pra perceber que muitos acontecimentos foram consequência direta de tantos outros e que muitos dos personagens citados foram contemporâneos. Afora os contextos políticos, ideológicos, culturais e econômicos, que são o que regem a sociedade, e não coincidências do tempo anotadas num papel. Também notei que a história do Samba é a própria história do Brasil, ele acompanhou, foi modificado e usado pra modificar elementos que, hoje, temos como naturais. E o primordial desse início de pesquisa foi pensar que ‘Agoniza, mas não morre’, que sempre me pareceu um lamento de quem vê sua arte definhando, era, na verdade uma espécie de ironia, como quem diz “ainda estamos aqui firmes e fortes”.

Nelson Sargento demonstra consciência de que o Samba foi sendo modificado desde a perseguição ao estrelato institucional e sempre é chamado pelo mesmo nome, apesar de ter sido muito modificado. Na verdade, como eu já citei por aqui, o samba que ganhou os holofotes não era o tradicional, foi criada a vertente de exaltação, diluída em arranjos estrangeiros e tals. Outra epifania foi a de que o Samba é negro e não multiétnico. Sim, diversos elementos de várias culturas tiveram participação no samba em geral, mas sua raiz é negra, vem do batuque, vem do jongo, dos orixás, etc. Nesse caminho, abri os olhos para questionamentos que a história linear convencional da escola não me alertou. “Como tudo ficou assim?”, “o negro foi libertado pela princesa Isabel… e daí?”, e, a mais importante “o que aconteceu ao negro depois da abolição da escravatura?”. Sabe, essa omissão de informação é parte integrante da mitológica democracia racial que ouvimos por aí, num discurso vazio de frases feitas. Se dessem ênfase na situação do negro, ao invés de fazer parecer um ‘troço qualquer aí’, muitas pessoas se sentiriam incomodadas com o racismo, ao invés de, assim como o negro o foi, varrido pra debaixo do tapete.

Cena de bastidores da sequência da qual participei em alguns momentos (não nesse aí).

Quando da minha formatura, em 2011, fiz um ano sabático em 2012, trabalhando em alguns bicos temporários e, o mais inusitado deles, foi ser figurante na novela Lado a Lado. Com a orientação de que deixasse o cabelo crescer – pois, naquela época, não havia corte à máquina como hoje – fui escalado para estar na comemoração ao fim da Revolta da Chibata. Estive lá, comemorei com meus colegas junto com Lázaro Ramos e César Melo e foi massa. Na outra gravação, sequência direta, semanas depois, eu seria um dos prisioneiros sofrendo a retaliação da Marinha aos revoltosos – maioria de patentes baixas e negra. Fomos ao Forte de São João, bairro da Urca, Rio de Janeiro, gravar nas galés. Como eu seria um prisioneiro e as condições eram péssimas, eu – e mais alguns – tive a farda rasgada com tesouras, estiletes e tals, além de água com lama e lodo pra dar o visual deteriorado de um marujo humilhado (a chuva de pouco antes ajudou na composição). Foi chamado um colega branco de 1,60m, aproximadamente, para ser o guarda de maior patente a me conduzir com truculência no fundo de uma cena com Tiago Fragoso. Detalhe, tenho aproximadamente 1,87m. “Gosto desse contraste”, disse a produtora que me retalhava as vestes, obviamente sobre o impacto visual que daria, um branco ‘baixinho’ dominando um ‘negão’ rebelde subjugado.

Enquanto esperava a produção das cenas começarem, aproveitei pra turistar minha cidade. Forte São João, Urca.

Enquanto esperava a produção das cenas começarem, aproveitei pra turistar minha cidade. Forte São João, Urca.

Mensagens subliminares à parte, o lance é que ainda existe essa necessidade da elite de mostrar ao negro ‘seu devido lugar’. Foi daí que eu entendi tudo. Foi como Aang abrindo o último chacra e entrando em contato com todas as suas encarnações anteriores de Avatar; Neo aprendendo a enxergar o mundo de Matrix em forma de códigos de programação; foi como aquele momento do filme de ação em que o herói descobre como derrotar o inimigo. Acordei pra uma nova vida, não pela militância em si, isso veio naturalmente, mas por eu crescido como ser humano ao enxergar o problema do outro, do próximo. Rompi a bolha que me mantinha achando que só eu tinha dificuldades e o resto era frescura – coisa que ouço muito de pessoas que realmente não se compadecem das dificuldades dos mais pobres, como se fosse tudo uma questão de sonhar e realizar. Não é um filme da Xuxa, gente, há um sistema que se interessa em manter tudo como está.

As datas são muito significativas.

Hoje é Dia Nacional do Samba, sem ele eu não tinha pesquisado de forma acadêmica e estaria feliz tocando pagode pela vida. Agradeço ao instrumento banjo, pois comecei pesquisando letras e músicas antigas e terminei me tornando um militante social pela causa negra, além de outros grupos estigmatizados, como gays, mulheres, idosos, deficientes, gordos, etc.

Momento jabá interno: Projeto do meu grupo, o Grupo Fidalguia (aguarde novidades). J´adianto que é Samba no puro suco.

No último dia 28, fez um ano que participei da fatídica figuração – embora eu não tivesse gravado a sequência, porque me queriam sem camisa e eu tenho tatuagens que não condizem com o contexto. Nessa época do ano passado, eu ainda tinha cabelos muito curtos, mas já estava com a decisão ideológica de assumir minha negritude e não desviar mais olhares dos graves problemas sociais desse país. Hoje, dia 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba, é o aniversário de aprovação de minha monografia, aquela que originou este blog

Próximo dia 13 é dia do marinheiro, papel que representei na figuração numa das raras novelas em que um casal negro tem as vezes de protagonista. Em tempo, e em epígrafe, o hino do sambista: Agoniza, mas não morre!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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