Hilário Jovino: Da Folia de Reis ao Carnaval

Hilário Jovino, a quem Aniceto chamava de ‘tio’ e, fora homenageado em seu Partido Alto Raízes da África.

Em se tratando de importância cultural no Samba, o nome Hilário(a) – ao invés do óbvio significado de jocoso, engraçado e tals – é referência para pioneirismo. Falo isso porque Hilária Batista de Almeida, Tia Ciata, dispensa apresentações, mas sobre ela eu escrevo mais especificamente no futuro, por enquanto é HiláriO que fica sob nossos holofotes, Hilário Jovino, o precursor de uma tradição que mantemos até hoje, e não parece haver previsão – ou intenção – de se modificar. Veja bem, não que eu apoie o conservadorismo, mas algumas tradições parecem estar tão apegadas a suas características, que é como se tivessem nascidas desse jeito. Mas tudo na vida tem uma origem, uma raiz. Tanto é que Hilário Jovino modificou uma tradição de seu tempo e concebeu o carnaval com moldes do que temos hoje, veja a seguir.

Hilário Jovino Ferreira (1850-1933), pernambucano, veio da Bahia para o Morro da Conceição, Rio de Janeiro, em 1872, onde logo se juntou a um rancho, o Dois de Ouros, que saía no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, conforme a tradição do local à época. Após um desentendimento entre integrantes do “Dois” (é, eu falo com intimidade sem pedir), fundou seu próprio rancho, Rei de Ouros, mas esse, ele pôs pra sair no carnaval, coisa que já se fazia em Salvador, onde fora criado, além de ter estabelecido os contornos originais de mestre-sala e porta-bandeira, como sabemos, elementos pra lá de importantes nas escolas de samba . Isso modificou a história do nosso carnaval e a febre de ranchos, que surgiram, para brincarem no carnaval – e não na Folia de Reis – só veio a consolidar a tradição que se faria presente nos dias de hoje. Hilário chegou a criar vários outros ranchos e alguns blocos carnavalescos.

Rancho O Macaco é Outro, nome que ironizava o racismo da sociedade. Estavam à frente Tia Ciata – fundadora – e Hilário, movimentador cultural.

Filho de ex-escravos, fora levado, ainda criança, para Salvador, e chegou já adulto ao Rio de Janeiro, onde trabalhou no Arsenal da Marinha e também adquiriu a patente honorífica de tenente da Guarda Nacional. Enquanto inquieto agitador cultural da época, tornou-se logo  o principal organizador dos ranchos no bairro da Saúde, reduto da região da Praça XI, onde se concentravam os baianos que fixavam moradia na cidade. Inclusive outros contemporâneos seus, também de destaque na efervescência cultural que receberia o nome de samba urbano, como Pixinguinha, João da Bahiana, Donga, Tia Ciata (com quem teria se desentendido, por namorar Mariquita, filha da yalorixá e fugir com uma amiga dela) e, José Barbosa da Silva, o Sinhô. Aliás, Hilário esteve também lá quando se deu a grande polêmica sobre a autoria de Pelo Telefone, partido alto – conhecido como O Roceiro – ainda com sotaque rural, que era cantado na casa de Ciata e que fora registrado por Donga e Mauro de Almeida. Da briga entre Sinhô e os baianos, Hilário entrou na briga compondo Não és tão falado assim e Entregue o Samba a Seus Donos, canções de resposta aos desaforos que o Rei do Samba jogava para seus ‘conterrâneos’ e acusações de plágio a Barbosa.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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