Zaquia Jorge, Vedete do Subúrbio, Estrela de Madureira

Quando fiz o artigo enumerando sambas-enredo campeões no gosto popular, mas que não foram campeões na avenida, citei Zaquia Jorge (foto à esquerda), por protagonizar um dos sambas mais famosos e queridos do mundo, e, na ocasião, prometi falar mais sobre ela futuramente. Pois o futuro chegou (pam paam PAAAM!!!). O samba que ganhou o direito de defender o Império Serrano na disputa oficial não foi o que Roberto Ribeiro gravou. Acontece que o concurso para escolha do samba de 1975 teve Zaquia Jorge, Estrela de Madureira, vedete do Subúrbio, de Avarese, como campeão. O que Acyr Pimentel e Cardoso compuseram, não fora aproveitado na escola, assim, o imperiano Roberto Ribeiro gravou com o sucinto título de Estrela de Madureira. Na apuração, o Império Serrano ficou com um honroso terceiro lugar, já a canção gravada por Ribeiro, tornou-se uma campeã de público, tocada até hoje em diversos shows e rodas de samba. Mas quem foi Zaquia Jorge afinal?

Antes, precisamos falar uma coisa, Zaquia Jorge  (1924-1957) foi um ícone cultural, mas em nada teve a ver com Samba, não diretamente. Ela nasceu em 6 de janeiro de 1924 e morreu a 22 de abril de 1957, teria hoje 90 anos. Ela revolucionou algumas frentes que, hoje em dia, ainda encontram preconceito da sociedade, naqueles tempos, deve ter sido um exemplo e tanto e uma figura admirável de se ver em ação. Bem, já que se eu ficar imaginando, eu paro de escrever, vamos falar da vedete principal do subúrbio da central. Zaquia foi uma vedete do Teatro de Revista (peças de teatro onde se fazia paródias de fatos e eventos de conhecimento público num misto de humor e – mais tarde – nudez… talvez uma espécie de embrião das pornochanchadas e essa mania ‘zorratotalizada’ de associar mulheres nuas e humor que não sei de onde vem, mas estou divagando…).

Zaquia fez sucesso em diversas companhias teatrais até que decidiu levar o teatro de revista para o subúrbio, lugar pouco agraciado com espetáculos culturais, e que Zaquia achava que precisava desse tipo de manifestação artística. Isso para não deixar na mão, diversos profissionais que poderiam amargar o desemprego da arte, com o fim da companhia da qual fazia parte. Sendo assim, ela conseguiu angariar subsídios para criar o Teatro de Revista Madureira, com direito a ações de ‘marketing’, anunciando, promovendo abate no valor de ingressos e outras medidas para atrair aquele público pouco habituado com essa forma de entretenimento. O espetáculo de estreia, adivinha? Trem de luxo (aquele que parte para exaltar a sua arte, que encantou Madureira).

O ‘’Madureira” só encontrou seu fim por causa da morte de Zaquia, por afogamento, na praia da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro-RJ, 5 anos após sua inauguração. Mas, mesmo com o palco apagado, a apoteose é o infinito, continua a estrela brilhando no céu, como diria o samba imortalizado por Roberto Ribeiro, do mesmo Império Serrano que mandou uma coroa de flores para o velório da vedete, atriz e empresária, às vésperas do dia de São Jorge, santo cuja uma imagem se localizava sobre o palco do Madureira, santo padroeiro do Império Serrano. Pensando bem, não é à toa que Zaquia e Império tenham tanta ligação, a ponto de muitos nem saberem quem foi a estrela e adorarem o samba assim mesmo.

Onde era o Teatro Madureira.

Enfim, atriz, cantora, empresária, escritora e, sendo mulher, na década de 1950, ela poderia ser considerada uma mulher à frente do seu tempo ainda hoje, quando mulheres ativas e independentes são motivo de desprezo da sociedade conservadora, pelo ‘atrevimento’ de lutar pela arte e cultura brasileiras e no interesse em leva-las a um público carente desse tipo de intento. A moça, falecida aos 32 anos, hoje em dia, quase não é lembrada pelo grande público, mas para quem conhece sua história só por alto, tem uma boa noção de porque sua partida mereceu uma homenagem de Carvalhinho e Júlio Monteiro, Madureira Chorou: “Madureira chorou / Madureira chorou de dor / Quando a voz do destino / Obedecendo ao divino / A sua estrela chamou”.

Mais de 4 mil pessoas compareceram ao velório da estrela de Madureira no teatro que levou o nome do bairro. Até o então presidente Juscelino Kubitscheck teria ido se despedir se não fossem “tarefas imprevistas, no Palácio do Catete”, conforme noticiou O Globo. A inegável importância de Zaquia Jorge para Madureira e o teatro brasileiro é evocada a cada roda de samba onde se canta um desses sambas em homenagem a ela, principalmente Estrela de Madureira, mesmo que não se lembrem dela, o subconsciente popular, tão bombardeado de regrinhas preconceituosas e inúteis, também é espaço a ser permeado com boas referências.

Agora que você já sabe um pouco mais sobre essa figura tão marcante para a cultura e para o subúrbio carioca, só podemos terminar com o clássico mais conhecido em homenagem à musa do teatro e do cinema que foi a visionária Záquia Jorge.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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6 respostas para Zaquia Jorge, Vedete do Subúrbio, Estrela de Madureira

  1. martha sant anna disse:

    adorei!!!!!!!!! parabéns pelo artigo!

  2. Muito bem lembrada esta homenagem a Zaquia Jorge Vedete que corajosamente levou o Teatro de Revistas para o subúrbio de Madureira um feito arrojado para época infelizmente esquecida por este bairro que enalteceu tanto creio não haver em Madureira nenhuma homenagem prestada a ela como dizia Noel “São Coisas nossas São nossas coisas”!!!! Quanto a Roberto Ribeiro na minha opinião um dos nossos maiores cantores infelizmente esquecido Fazer o
    que?

    ,

    • Pois é, Armando, tanto o ícone quanto o dono da voz mais famosa a cantar essa homenagem são injustiçados pela grande mídia. São dois marcos da nossa cultura, mas como não são produtos instantâneos e descartáveis, perdem muito espaço nas prateleiras da cultura pop. Feliz de quem conhece. Rá! abçs

  3. Silvio disse:

    Sensacional. Sou de Madureira, apaixonado pelo bairro e sua historia. Não conhecia e hiostoria de Zaquia Jorge;

  4. Marcia Cristina Lopes disse:

    Maravilhoso ler esta história mais triste ao mesmo temo constatar tanta falta de Memória com relação a nossa história, mulhres que foram referência e que ficam no anonimato é preciso espalhar esta vivência maravilhosa de Zaquia Jorge. E salve nosso querido Roberto Ribeiro que ecantou nossos corações com sua marcante presença no Samba. Bom dia….

  5. Ivanil Lourenço dos Reis disse:

    Ivanil Lourenço/ Santista de coração mas com muito amor por Madureira, Portela, Império e o povo carioca
    Excelente material cultural, isso faz falta nas rodas de samba, onde deveria sempre que possível ter um bate papo sobre sua origem.

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