Quem tem medo de mandinga não carrega patuá

Entre 24 e 25 de janeiro de 1835, houve, na província da Bahia, o primeiro grande registro de luta por liberdade religiosa e a tomada do governo para um estado livre. Vindo dos malês, negros muçulmanos (Mandingas, Houssás e, sobretudo, nagô/Iorubá), fizeram frente ao império e demonstraram, mesmo derrotados, que o sistema vigente não agradava e ainda viria a sofrer sérios prejuízos, como saques, fugas, confrontos e até o assassinato de famílias inteiras de senhores opressores de engenho. Pensa que a “maravilhosa” abolição veio do nada, por bondade? Vai vendo… Aliás, veja e pesquise sobre Luiza Mahin, pra ter ideia, pois sobre ela eu escrevo futuramente (eu prometo, eu cumpro).

Hoje em dia são um dos maiores grupos étnicos da África Ocidental, com uma população estimada em 11 milhões.Eu conhecia essa como ‘quem não pode com mandinga, não carrega patuá’, mas o sentido é o mesmo, levando em consideração a história que a origina. A frase é muito conhecida entre o povo que curte um batuque, uma corimba, etc. Até quem não é de cheirar, cheirou, do contexto acaba esbarrando na expressão, quando ouve alguém falando ou em algum verso de canção, cujo compositor entende do assunto, mas pouca gente sabe de onde saiu essa expressão tão desafiadora. Pois bem, eu conto no próximo parágrafo.

Bem tudo começa naquele tempo de dor, mas de expansão cultural indireta, chamado escravidão. O continente africano, ao contrário do que muitos pensam, não é apenas um amontoado de negros em mínimas condições de vida (com se todo o continente fosse como um país só e miserável), é um polo cultural riquíssimo, contendo diversas religiões, danças, artesanato, por suas variadas etnias. Uma dessas etnias era a dos Mandingas/Mandingos, negros muçulmanos e com o conhecimento da leitura e escrita.

Ao serem sequestrados para o Brasil, eram tidos pelos escravizadores em lugar de destaque e confiança, tornando-se, muitas vezes, capitães-do-mato, além de funções ‘de ganho’ (escravos com liberdade e confiança de trabalhar para senhores e fazer dinheiro para eles), como alfaiates, comerciantes, carpinteiros, artesãos, etc. Pois bem, os mandingas carregavam consigo o alcorão – livro sagrado do islamismo – e um saquinho – chamado patuá – contendo um papel com uma oração, preso a um cordão em volta de seus pescoços. Sabemos que existem horas específicas para o muçulmano fazer suas orações e, nessas horas, eles catavam seus papeizinhos para o ato.

O que acontecia é que muitos negros de outras etnias andavam com patuás falsos para que, em caso de fuga ou abordagem intimidante – arrisco que sempre – eles alegassem serem mandingas, como o capitão-do-mato – sendo o caso. Então o capitão mandava-os ler a oração pra confirmar que falavam a verdade, pois costumavam a se reconhecer recitando passagens do livro sagrado, mas não sabendo ler, muito menos em árabe, o fujão era morto ali mesmo, pois era considerada falta grave se passar por um mandinga ou, genericamente, tentar enganá-lo. Daí a expressão “quem tem medo de mandinga, não carrega patuá”.

Muitos negros de outras etnias atribuíam um certo poder místico aos patuás, talvez pelas inscrições no couro/papel que guardavam, e atribuíam essa magia ao fato de os capitães identificarem os falsos mandingas. Pode ser também daí, a aura sobrenatural atribuída ao objeto, em relação à proteção da pessoa, já que as bolsas de mandinga, como também eram conhecidas, carregavam objetos, ervas, etc, e eram incensados ou defumados e essas coisas. Acho que fica simplista, mas um belo exercício de correspondência lógica de registros históricos.

Pensa bem, um determinado grupo de negros é visto como instruído, imponente, altivos e não subjugados como os outros, eles carregam um objeto especial, falam uma língua diferente, até em seus cabelos espichados se reflete sua liberdade maior que a de seus irmãos de outras etnias. Quando se aproximam sabem quem mente e quem não, e o objeto está lá… Fácil imaginar a mística envolvida. Daí, devia dar tanto medo lidar com esses caras de turbante que a recomendação mais comum seria “cuidado, quem não pode com mandinga, não carrega patuá!”. Tipo, tá bom, mãe, eu largo de mão essa coisa de patuá pra não ter problemas.

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Comunicação UNEGRO e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Quem tem medo de mandinga não carrega patuá

  1. Manoel Ailton disse:

    A LUTA CONTINUA!

  2. Siméia disse:

    E as fotos, Fernando? Fiquei curiosa para conhecer mais sobre as fotos!!! Abraços!

    • Essas fotos eu lembro de ter visto em exposição no CCBB, aqui no RJ. Era uma série de fotos dos tempos da escravidão. Prometo falar delas sim, é importante notar que a escravidão não está tão distante e apagada dos tempos de hoje. Uma sociedade não se modifica em “poucos anos”, relativamente. Abraços!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s