Blocos carnavalescos revitalizados

Lá pelos idos de 1960, 1970, os blocos carnavalescos eram a elite do carnaval, pelo menos aqui, no Rio de Janeiro. Zeca Pagodinho, antigo frequentador de gigantes dessa época como Cacique de Ramos e Boêmios de Irajá, chegou a dizer uma vez que se divertia mais nessas manifestações do que com escolas de samba. Mas o que houve que os blocos mudaram tanto? Bem, venho fazer considerações de opinião meramente particular sobre o que eu lembro de ter vivido em outros carnavais e algumas opiniões profissionais que catei aqui e ali.

Primeiro vamos ao cenário das escolas de samba. As escolas surgiram como manifestações populares, verdadeiras evoluções dos ranchos e blocos antigos, que nasciam do povo para exibir sua cultura à sociedade nos carnavais, já que o negro não frequentava altas rodas para ter acesso aos bailes dos clubes. Como toda evolução, a espécie original não desaparece, vai se modificando e os ranchos viraram escolas que, com uma baita interferência do Estado, passou a se industrializar, a partir diretamente da institucionalização de seus enredos.

Os incentivos do governo também evoluíram de permissões para existência e desfile a gordos investimentos pensando no turismo, que movimenta a economia de uma cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo. Só que as escolas cresceram demais, o povo perdeu o lugar de destaque e agora é só mão-de-obra e figuração. Essa ‘digivolução’ de escolas em super escolas meio que afastou o público para os blocos de rua, muito mais espontâneos.

Ao passo que as escolas de samba se industrializavam, aconteceu um processo nos moldes de um relacionamento desgastado, conforme vai se exigindo muito, a paixão cede espaço para a razão, e começam a aparecer “defeitos”. Por exemplo, um folião nota que pra desfilar numa escola, precisa frequentar ensaios o ano todo pra ganhar uma fantasia ou pagar bem caro por uma ala rifada, enquanto isso, o folião num bloco de rua, só precisa chegar ao local e, no máximo, quando é o caso, comprar uma camisa ou fantasia por um preço muito menor, quase simbólico. Tirando a possibilidade que alguns oferecem de haver consumação de comes e bebes.

Depois de alguns anos fora da mídia, os blocos passaram a ter até cobertura de TVs e rádios, mas eles não necessariamente deixaram de animar carnavais, só estiveram fora do foco. Talvez pela mecanização do carnaval de sambódromo, que ficou muito caro e turístico – ironicamente o turista vem ver a manifestação de cultura e se depara com designers elaborando produções muito chiques, como sambista nenhum faria, e ainda sendo mais aclamado que o passista ou mestre-sala e porta-bandeira, que são os que defendem no pé e no peito a escola.

Dadas essas informações, a problemática que me vem à mente é: Hoje que a mídia divulgou os blocos de forma massiva a ponto de haverem blocos que nem samba tocam, qual será o futuro próximo do carnaval de rua do Rio? Digo, porque as escolas de samba já quase que eliminaram suas cadências e muitas áreas viraram cabide de emprego ou vitrine de subcelebridades e agora há blocos que tocam rock, sertanejo e até dance… E não me venha dizer que carnaval permite tudo nos blocos, pois a primeira coisa que se reclama de Ivete Sangalo e Carlinhos Brown num Rock’N Rio da vida é que ali não é o terreno natural de sua música.

Os blocos do eixo Centro-Zona Sul estão ganhando projeção, mas as outras áreas não têm, e olha que muita coisa acontece pelos subúrbios, Baixada Fluminense e outras regiões como Serrana, dos Lagos e Metropolitana. Enfim, só um exercício de divagação, mas uma constatação, o carnaval ficou industrializado até na rua, com camelôs credenciados vendendo a preço tabelado uma só marca de cerveja, com direito até a distribuição de brindes dela, como chapéus, sapatos ou roupa usada, quem tem?.

Até concordo com um certo controle, lembrei de uns 4 anos atrás, quando a prefeitura registrou blocos demais e o que houve foi um caos de superlotação nas ruas com transtornos rodoviários, mijo por todo lado e nenhuma projeção de segurança. Só fico meio paranoico em pensar que um dia as escolas de samba também só se preocupavam em embalar e soltar a voz no carnaval. Mas, vá lá, sempre vai ter espaço para aqueles blocos formados na amizade, no clima de festa e cultura popular, sem muita mídia, mas com muita empolgação.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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