Manifestações carnavalescas: Blocos, entrudos, ranchos, sociedades carnavalescas e escolas de samba… Qual é a diferença?

O sagrado e o profano vêm, cada um de um lado, mas, ao mesmo tempo, nascem juntinhos e tomam caminhos diferentes. Esse é o modo que eu vi as nuances das origens dos carnavais no Brasil, mas especificamente aqui no Rio de Janeiro. Do lado popular, surgem os Cucumbis Carnavalescos, de descendência direta dos cucumbis, uma manifestação de negros, para desfilarem o carnaval com autorização policial. Do lado soft da coisa, teremos a elite sempre se distanciando de tais atividades ‘bárbaras’ e se recolhendo em clubes e salões, mas sem deixar de exibir a necessidade de diversão que todo ser humano um dia demonstra. Dessas duas faces da mesma moeda, nascem as manifestações carnavalescas que originaram nosso carnaval moderno, ou melhor, contemporâneo.

Não vou falar de escolas de samba – diretamente – neste texto porque como elas ainda estão com força na atualidade, creio que um artigo futuro exclusivo possa dar conta, por enquanto vou falar daquelas manifestações que já não vão se transformar, pois, justamente por se modificarem, ou se extinguiram ou viraram peças folclóricas, afim de só se manterem por lembrarem o que já representaram no passado. Antes, uma menção honrosa ao Zé Pereira, tipo de folguedo semelhante ao bloco de sujo, de hoje em dia, quando se junta uma galera pra fazer uma farra ao som de tambores, zabumbas e demais percussões.

Entrudos

Entrudos eram bonecos grandes de madeira e tecido, esses elementos, trazidos pelos portugueses pelo século XVI, deram nome ao folguedo que, iniciou-se como um conjunto de jogos e brincadeiras em tempos de carnaval. Havia o entrudo popular, uma guerra de água suja, urina, ovos e frutas podres, que acontecia em bairros populares com caráter bem desrespeitoso e também havia o entrudo familiar, das famílias dos centros urbanos, onde ocorriam guerras de limões, com o intuito de socialização. Pensando bem, o povão sempre leva a fama de selvagem. Embora ainda haja, muito raro, a tradição do entrudo chegou a ser proibida, na sua forma popular, mas ainda existe, mas com muito menos força em locais isolados.

Foi substituído pelos bailes de máscaras, óperas e teatro com influência em cidades, formalmente conhecidas como sofisticadas, como Veneza e Paris. O carnaval da elite se modificou ao passo que o popular fora proibido, nesses moldes. O interessante é que máscaras, para os escravos, eram proibidas no carnaval, mas a segurança pública era ostensiva a fim de garantir a folia da elite nas ruas, coisa que não o faziam, pois o carnaval popular era tido pela classe dominante como selvageria e imoralidade. Ficavam no salão ou iam com a promessa do governo de ‘ambiente familiar’. Não é de hoje que só as máscaras da elite são permitidas, por segurança.

Ranchos

Ranchos eram um tipo de folguedo originário da Bahia e que saía no período entre o natal e a folia de reis (tipo, o período pra se deixar a decoração de natal armada, rá!), trazia uma estrutura musical com sopros, percussão, apresentavam um lundu sapateado. Também trazia balizas e os contornos iniciais de mestre-sala e porta-estandarte (que recolhiam doações pelas casas por onde passavam). Isso, no início.

Depois que Hilário Jovino, em 1872, transferiu seu rancho, Rei de Ouros, para sair no carnaval, os ranchos passaram a ser associados à festa de Momo e foram descritos como óperas populares. Ô Abre Alas é o mais famoso exemplo de marcha-rancho, típico ritmo que embalava os foliões. Diz-se que os casais de mestre-sala e porta-bandeira começaram ali a defender seus pavilhões, inclusive o mestre-sala chegava a portar uma navalha para que sua bandeira não fosse roubada por um rancho rival.

Ranchos foram base para as atuais escolas de samba, por exemplo, a famosa primeira escola de samba, Deixa Falar, nunca foi escola, e sim, rancho. Escola era apenas uma conceituação cultural, só depois isso se transformou nas agremiações que conhecemos.

corso no Rio em 1906 | Batalha das flores

Corsos

Corsos eram da mesma intenção festiva dos ranchos, mas feitos pela elite, com base no modelo europeu de Paris e Nice, pois, se usavam carros – artigo de luxo à época – enfeitados (precursores alegóricos?) percorrendo o centro da cidade e, quando se encontravam, os integrantes de cada carro iniciavam uma batalha de confetes, serpentinas e lança-perfume.

Sumiram antes dos ranchos, pois, a popularização dos automóveis, na década de 1940 teria afastado as classes alta e média do carnaval de rua, mas também há a corrente que defende que o carnaval de rua da elite, tendo sido transferido para clubes e bailes fechados, foi o que causou esse afastamento.

Cordões

Apesar do que parece – eu mesmo pensava – o nome de cordão está mais no ato do que no fato de haver uma corda em volta dos participantes. A estrutura musical exclusivamente percussiva e os foliões de máscaras de temáticas diversas eram características básicas. Foram substituídos pelos ranchos, pois, como a casta intelectual da época classificou a manifestação como desorganizada, priorizaram os ranchos, que eram mais

Blocos

Entre os sociáveis ranchos e os temidos cordões (por causa da imagem desordeira que tinham diante da elite), estavam os blocos carnavalescos. Essa flexibilidade em agregar elementos possibilitou que se

desenvolvessem a ponto de vários deles se tornarem escolas de samba. Mas ainda existem aos montes numa configuração de carnaval popular, que tem agregado até outros ritmos, como blocos temáticos tocando Beatles, Los Hermanos e os que se baseiam mais na música baiana. Mas, claro, ainda existem blocos tradicionais como o Cordão da Bola Preta – apesar do ‘cordão’, sua classificação é de bloco – Cacique de Ramos, Bafo da Onça, Cordão do Boitatá, Carmelitas e outros, que ganharam um novo fôlego de alguns anos pra cá, diante do grande público.

Sociedades

Sociedades ou clubes carnavalescos eram o carnaval da elite, que importavam os bailes de máscaras e bailes à fantasia da Europa. Foliões de elite, também saiam às ruas em suas carruagens bem enfeitadas e disputavam guerras com limões de cheiro, confetes e serpentinas. Era a maneira de a elite curtir o carnaval, mas sem se misturas com o carnaval popular, sempre tido por eles como agressivos, selvagens, e tudo mais relacionado ao conceito etnocêntrico de primitivo/sofisticado.

Podemos notar que tão simples quanto separar as origens populares e elitistas dessas manifestações em apenas dois pontos de partida, é a prática delas – na medida do possível, dada a pesquisa “por alto”. Digo, tantos nomes diferentes e, no fim das contas, são duas manifestações básicas que foram se influenciando, o resto é necessidade de se rotular as coisas, pois, é só reparar bem: Se a origem é de classe média/alta, tanto faz entrudos familiares, sociedades ou corsos, são a mesma manifestação de gente abastada. Já, quando se fala em origem negra e pobre, ranchos, blocos e cordões estão lá, no imaginário popular. E há o momento em que começaram a se modificar em características do outro até que nada disso mais pode ter um nome hoje, chamam de bloco e pronto.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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