O descaso ao carnaval tradicional de rua carioca

Vou ser bem direto, se o pessoal do Rock in Rio chia quando se depara com Carlinhos Brown e Ivete Sangalo, alegando que eles têm que tocar num trio elétrico e não no RiR, então não adianta falar que o que vale no carnaval é a folia e querer meter que Sargento Pimenta, Toca Raul ou algum outro relacionado ao Rock tem direito ao mesmo valor cultural dos blocos tradicionais, como Bafo da Onça e Cacique de Ramos. Ok, vale a brincadeira, mas a comercialização e pasteurização que acabou com as identidades das escolas de samba está se tornando grande demais, ameaçando agora, o grande barato do carnaval: Blocos tradicionais.

Cláudio Cruz, fundador do Embaixadores da Folia – outro gigante da tradição do carnaval – reclama que a prefeitura não tem dado a devida atenção ao convencional, de olho grande nos números dos blocos-moda que surgem a cada ano e vão fazendo seu nome no carnaval, apesar de não serem blocos carnavalescos e poderem tocar a qualquer época do ano. Cruz afirma que o valor bruto do que recebeu ano passado do poder público caiu para 1/3, chegando a algo como 4 mil reais, o que o faz pensar se terá condições de levar sua festa para a Avenida Rio Branco.

Um pronta resposta da Secretaria Estadual de Cultura, responsável pelo repasse de verba para o carnaval de rua do Rio afirmou que teve que redimensionar seus gastos para contemplar também blocos de afoxé, ranchos, bate-bolas e outras manifestações carnavalescas. Uma melhora na ajuda aos blocos tradicionais está prevista apenas para 2015, por este ano, baluartes da “elite do carnaval de rua”, como Boêmios de Irajá, passaram o carnaval – e o ano – com o cinto bem apertado. Cláudio Cruz não engoliu muito essa vontade toda de democratizar o carnaval e espeta o seguinte:

Daqui a pouco eu vou criar o bloco ‘Toca Carnaval’. Adoro Beatles, mas o bloco do Sargento Pimenta tem que tocar na Inglaterra, não no Rio. O Exalta Rei tem que ir para o fim de ano num especial de TV, com o Roberto Carlos. O poder público tem que zelar pela tradição da nossa cidade”.

Eu ainda complemento, porque não põe o Sargento Pimenta no Rock in Rio? Blocos recentes e já tradicionais como Monobloco, pelo menos, viraram modinha tocando música nossa, num evento cultural nosso e querer globalizar isso não é democratizar, é querer invadir um espaço que não pediu por isso. A industrialização trará muita grana, mas nenhuma tradição, o que, na minha inútil opinião, será um tiro no pé a médio e longo prazo. Tudo que é deturpado causa desinteresse. Até o turista que vem pra cá não quer ver uma festinha de rua pop, quer sambar desengonçado na avenida, oras!

Luiz Antônio Simas, diante de um universo que todo sambista acadêmico se sente à vontade.

Professor de História e especialista em carnaval, Luiz Antônio Simas é um folião assumido e crítico ferrenho dessa industrialização do carnaval de rua do Rio. É uma micaretização, como define, coisa que estava acontecendo em Pernambuco, por exemplo, mas que o estado soube contornar revalorizando o frevo e a cultura local como um todo. É preciso que isso ocorra aqui no Rio de Janeiro também, pois, não vai custar muito para que esses blocos mais massificados e “descolados” prevaleçam e apenas os muito lotados, tipo o Bola Preta ou o Cacique, mantenham a dobradinha lucro-tradição-apelo comercial e midiático.

Ainda segundo Simas, esses blocos mais comerciais do que tradicionais arrecadam uma boa grana com oficinas, ensaios e shows durante o ano todo, coisa que os tradicionais blocos não fazem, pois não há procura fora do carnaval, a menos que haja incentivo do governo, como o já citado Cacique de Ramos, que abriga uma das rodas de samba mais tradicionais do Rio ou o Boêmios de Irajá que abriga eventos, como a roda de Samba do grupo Quilombo entre outras festas.

Sabe o que eu acho? Concordo quando falam em mercantilização do carnaval de rua, eu já venho falando isso eventualmente aqui, desde a marca de cerveja padronizada nos camelôs credenciados às outras marcas de produtos e serviços estampando ruas, avenidas e até sambas de escolas grandes. É preciso dar uma brecada nessa tradição-que-se-repete-como-farsa, uma tradição pré-fabricada que só vai beneficiar quem tem grana pra ir a outros clubes e bailes, pois a rua deveria ser espaço democrático, apenas com a preocupação de não virar um caos, mas não pra embalar e plastificar. Já não basta o cabide de emprego e propaganda que as escolas se tornaram?

E ainda acrescento, até escolas de grupos menos favorecidos estão sofrendo com a falta de investimento do governo olhudo, que só tem atenções pra onde reluz o vil metal. Exemplo disso é o grande Império Serrano, no grupo de acesso, vivendo de feijoadas, botequins e demais eventos que arrecadem um qualquer pra poder fazer seu carnaval. Até ajuda de torcedores e integrantes ilustres a escola faz pra não deixar cair seu estandarte. Se houvesse uma preocupação cultural, os nomes de peso seriam dos baluartes e das escolas, blocos, etc e não de empresários, políticos e subcelebridades.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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