É Puxador ou é Intérprete de Samba-Enredo?

Nota do autor: Este texto é uma opinião pessoal minha, de acordo com minhas leituras e horas de documentários assistidos. Além, é claro, de minhas impressões sobre minha própria vivência em rodas de samba e frequência em shows, rodas e nos pagodes da vida de maneira geral.

Leandro Hassum e Marcius Melhem fizeram, no espetáculo de comédia Nós na Fita, algumas piadas que me são recorrentes toda época pré-carnaval – e, claro, durante a festa também. Tem aquela que fala das explicações alucinadas poéticas dos carnavalescos sobre o modo como conceberam seus temas e tals, mas até aí, até que o exagero nas respostas faz sentido. Veja o recente exemplo de Paulo Barros fazendo carnaval sobre o centenário de nascimento de Luiz Gonzaga (2012), onde ele criou um enredo lírico de diversos reis da cultura popular indo até Pernambuco visitar o Rei do Baião (os ebaluaés de Oxóssi, ó, Clara Nunes, ó Power rangers!). Rei do Baião, diga-se, que só pinta – no desfile – no último carro no alto da alegoria.

Mas a piada que merece uma atenção especial nesse momento é a da tal mania de puxadores intérpretes dos sambas em avisar a próxima frase da música. Globeleza, de Jorge Aragão, é exemplo disso “(E lá vou eu!) Lá vou eu…!”. Segundo a piada, é desnecessário repetir, o público já entendeu na primeira. “Soletrar” o verso logo depois de falar a mesma coisa é redundante, não é verdade? Nhé… mais ou menos, mais ou menos… A coisa tem uma raiz. A raiz do samba explica essa ‘soletração’ de versos ou apenas palavras iniciais de estrofes. Repito, a piada é legal, mas estou aqui pra falar no porquê de acontecer o fato mencionado no show.

Como no Partido Alto, as escolas de samba, em seu primórdio, cantavam um refrão ‘puxado’ pelo cantor.

Bem, a raiz do Samba cantado, que se desenvolveu dos eventos, das danças e das reuniões de negros – em maioria – na região da antiga Praça Onze, onde surgiu o samba urbano, o predecessor do Partido Alto que conhecemos. E, como os versos eram de improviso, mas tendo um refrão fixo, que dava o tema para os versadores, era comum se “chamar” o refrão depois de um verso, como quem avisa que seu verso acabou. Alguns anos depois, com o desenvolvimento dos ranchos em escolas de samba, o costume se popularizou e, durante os desfiles, não havia enredos pré-estabelecidos, apenas um cantor lançando os versos e a escola respondendo ou repetindo. O cantor, nesses casos, “puxava” os sambas (daí a expressão).

Não havia um cuidado com a canção ‘samba’, era uma música de traços harmônicos característicos, mas que o forte não era cantar, e sim animar a escola e o público. Assim, o cara que vinha ao microfone ele vinha ‘puxando’ mesmo, com o apoio das pastoras. Daí, vem a explicação à famosa imposição de saudoso mestre Jamela. Jamelão não gostava de ser chamado de puxador, ele era um cantor, tinha todo um trabalho, técnica e tudo mais, além da bela voz. Vai dizer que ser chamado de puxador, como a maioria que apenas precisava ter voz potente pra “puxar” a galera no embalo da escola não ia te dar um incômodo?

Jamelão ‘dando banana’ não te deixa confuso?

Jamelão não ficava restrito a animar os sambas por aí, ele tinha uma carreira de cantor, cantou em gafieiras, gravou discos, o samba o manteve muito ligado ao carnaval, mas tinha uma carreira ‘fora’. Talvez, por causa do samba, sua carreira tenha sido meio que ofuscada, não sei, talvez, pelo público achar que só ouviria canções da Mangueira, mas não é isso. A arte de Jamelão é esplêndida em toda sua gloriosa voz e interpretação. Viu? Interpretação. “Puxador é puxador de corda, puxador de carro, puxador de fumo, puxa-saco… Eu sou é intérprete.”, declarava o “melhor mau humor do Brasil” (que, na verdade era apenas avesso a badalações e, óbvio, sisudo).

Mas, voltando à vaca fria, seguindo uma ideia de Martinho da Vila, na hora do ‘vamuvê’, é meio difícil haver interpretação, ou, havendo, ela torna-se difícil pro cantor e desnecessária para o integrante da escola. É preciso apenas uma voz pra guiar a harmonia, ou seja, tanto um cantor gabaritado como um agitador animado se equiparam no propósito de cantar um samba-enredo na quadra ou na avenida. Nesse caso, tanto cantor quanto gritador é puxador. Por isso, pra avisar “olha o refrão/olha o verso”.

 Por isso temos tantas músicas nesse sentido. E, pra ilustrar como a dinâmica não é exclusividade do Samba, lembra que Marcelo Rossi, o padre, faz muito isso? Ele sempre diz a frase antes que venha o tempo para cantá-la. “(Erguei as mãos!) Ergue-ei as mã-ãos…”. Então, respeito a piada, e confesso que acho interessante, foi uma observação perspicaz, mas não tem o menor cabimento, até parafraseando o espetáculo solo de Hassum, quando a gente observa com uma lente de aumento, vê que não tem nada ali.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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