Sambódromo: 30 Anos – Da Praça XI à Praça da Apoteose

2014 é um ano redondo para o Sambódromo. 30 anos da Passarela do Samba, que já foi chamada de Avenida dos Desfiles e há pouco tempo, ainda tinha uma fábrica de cerveja abandonada bem entre arquibancadas (ao lado direito pra quem vem da Av. Pres. Vargas). Hoje é palco dos desfiles e ensaios técnicos, mas, ao longo do ano, acontecem também shows (Black Sabath, Aerosmith e até o famigerado Justin Bieber, foram alguns dos mais recentes), eventos religiosos e esportivos. Mas isso tudo começou a algumas dezenas de metros dali, naquele pedaço entre o Morro da Providência e o bairro do Estácio chamado (Ó) Praça XI (tu és imortal!).

A Praça XI

Antes, chamada de Largo do Rocio Pequeno, a região foi modificada a partir da fuga da família real portuguesa para a então capital do país. As modificações mais relevantes foram o nome do lugar para Praça XI (de junho de 1865), em homenagem nacionalista que tomou conta do império, com a Batalha do Riachuelo, confronto liderado e vencido pelo Brasil na Guerra do Paraguai.

Começa na Praça XI

Por ser uma região, anteriormente, pantanosa, o famoso Mangue, frequentado por Luiz Gonzaga e Noel Rosa, por exemplo, abrigava muitos imigrantes, devido sua localização próxima a portos, mas foi a presença negra que fez toda a diferença. Vindos, principalmente, da Bahia, os negros vinham buscando melhores condições de vida, com o fim da escravidão, no Distrito Federal e concentraram a lendária Pequena África. Nos primeiros anos da década de 1930, o prefeito Pedro Ernesto legaliza as escolas de samba, recentes agremiações oriundas de ranchos, cordões e blocos carnavalescos. O cortejo passava em torno da Praça XI e passava pelas casas das tias baianas, fazendo reverência aquelas que abrigavam as festas de samba na sua origem urbana.

Vão Acabar com a Praça XI

Grande Otelo procurou Herivelto Martins pra produzirem Praça XI, uma homenagem comovente ao palco de tantos carnavais, que seria demolido para benefício da urbanidade. Foi em 1941 que começaram as obras de modernização da região, visando um acesso mais fácil das regiões periféricas ao Centro do Rio. Com isso, mais de 500 imóveis foram demolidos, inclusive as igrejas de São Pedro dos Clérigos, São Joaquim e a casa de Hilária Batista, a Tia Ciata. O monumento a Zumbi dos Palmares – sempre alvo de vandalismos e depredações – está num dos poucos espaços remanescentes da antiga praça, o Terreirão do Samba é outro dos poucos lugares ainda culturais a sobreviverem ali, mesmo com a Avenida Presidente Vargas cortando a localidade.

Surge a Avenida Presidente Vargas

Salgueiro desfila Xica da Silva em frente à Igreja da Candelária, ponto de ligação entre Av. Presidente Vargas e Rio Branco.

Inaugurada em 7 de setembro de 1941, sobre os escombros de ruas-sede da efervescência urbana cultural e boêmia carioca. Daí pra frente, os desfiles foram crescendo, rendendo mais dinheiro e prestígio e, como sempre, atraiu os olhares de fora, vinha – e vem – gente de todo lado querendo faturar ou se promover. Os desfiles aconteciam sempre no domingo de carnaval, mas, principalmente, a partir dos anos de 1970, as escolas já se encontravam em estágio de gigantismo “super escolas de samba S/A”, causando sérios problemas para um tipo de evento que já recebia muita atenção pelo potencial turístico e econômico. Desfiles cada vez maiores, cada vez mais componentes nas escolas, até que algo precisava ser feito contra a desorganização.

Marquês de Sapucaí

No início dos anos de 1980, o então governador do Rio, Leonel Brizola, e seu vice, Darcy Ribeiro, tiveram a ideia de estabelecer um local fixo para os desfiles, onde aconteceriam dois dias da referida competição. O local foi escolhido onde já aconteciam os desfiles, a Avenida Marquês de Sapucaí. Oscar Niemeyer foi incumbido de projetar o tal lugar institucionalizado para uma das maiores fontes de renda e turismo para o Rio. A obra teria a missão de ampliar a quantidade de espectadores e firmar um lugar fixo para eles e não mais as arquibancadas improvisadas, montadas e desmontadas apenas para a “brincadeira”. Aliás, elas ainda existem, ficam lá na concentração, na Presidente Vargas, como mero paliativo para quem não pode pagar ingresso.

O Sambódromo, Passarela do Samba

Leonel Brizola e Darcy Ribeiro em uma de suas memoráveis heranças culturais, além, é claro, dos Centros Integrados de Educação Pública, os famosos Brizolões.

Todo mundo conhece como Sambódromo (sugestão do próprio Darcy Ribeiro), porque dá a entender que é um lugar de samba e sede da competição entre as escolas de samba, mas o nome mesmo é Passarela Professor Darcy Ribeiro. Assim, o Sambódromo – nome popular que permaneceu, assim como o Estádio Mário Filho é chamado de Maraca(nã) – passou a representar uma fase em que os desfiles foram divididos em duas noites e não apenas num dia de exibição atribulado, também o engessamento das escolas e a maior distância da raiz cultural que originou esse negócio. A tal pasteurização que eu sempre falo por aqui, mas isso é papo pra outra hora.

Niemeyer e Brizola sobre a maquete da passarela do samba.

Por enquanto, fica um breve relato histórico sobre o carnaval de desfiles de escolas de samba, desde a Praça XI até a Praça da Apoteose, data significativa de uma era que marca a total industrialização do carnaval de sambódromo, o que pode ser muito bom para a cidade, mas como não vemos tanta grana investida onde se deve, andei praquilo lá. Vejo uns ensaios e tals, mas curto mesmo é bloco de rua.

 

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Falando Nisso..., Tesouros do Samba e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s