Emancipação do grupo de acesso

Desfile do Império da Tijuca

Eu já falei aqui sobre o peso do nome da agremiação e de suas lideranças – figurativas ou administrativas – então vou passar a um ponto interessante levantado por Antônio Marcos Teles, o Tê, presidente da Império da Tijuca. Será mesmo que o Grupo Especial é tão especial assim, ou só é rico?

 

Pergunto isso porque o Grupo de Acesso – série A é o escambau – foi unido, ou seja, os antigos A e B se juntaram, sob a batuta da LIERJ (saca, a LIESA só que de baixo orçamento). Esse ano, por exemplo, foram 17 escolas desfilando sexta e sábado para que três caíssem (Tradição, Rocinha e União de Jacarepaguá em 2014) e uma subisse como campeã (Viradouro). O que isso me pareceu, uma espécie de ‘enxuga’, que vai reduzir o que eram dois grupos de acesso a um só, inclusive com o mesmo contingente, talvez. As escolas que forem caindo vão perdendo prestígio e grana, o que aconteceu com a própria Tradição, que há pouco mais de 10 anos trazia Silvio Santos para o Sambódromo e agora está quase virando bloco.

Ao passo que o Especial vai se tornando uma panela, isso mesmo, uma panela, onde o pequeno não tem vez. Também já falei aqui sobre a pedra de gesso que se tornou o carnaval de Sambódromo, sempre a mesma meia dúzia disputando o nome mais famoso e a modernice mais tecnológica e sempre uma ou duas já cotadas para a queda. Não preciso dizer que, apesar de um certo rodízio entre as grandes que disputam, estão sempre lá Beija-Flor, Unidos da Tijuca, Mangueira e Salgueiro. Aí, vêm aquelas que se preocupam em divertir, como União da Ilha e São Clemente e aquele grupo meio irregular, que já foi mais vistoso, como Mocidade Independente e Vila Isabel. Portela corre por fora, embora, ultimamente tem se estruturado melhor.

 

Sendo assim, quando chega a ‘intrusa’ do grupo de acesso ela sofre duplamente, com o gigantismo da Cidade do Samba, muito maior que sua estrutura campeã do ano anterior, tendo que se adaptar ao novo formato e mesmo assim disputar de igual pra igual com as já habituadas a isso. É como um adulto apostar corrida com uma criança. O pequeno sempre vai perder, já no subconsciente. É aquele papo, lembram do casal de mestre-sala e porta-bandeira que só ganhavam 10 nas Unidos da Tijuca da vida e, ao mudar para a Inocentes de Belford Roxo não ganharam UM dezinho sequer? Fazendo a mesma coisa que sabiam lá no especial.

E é aí que entra a Império da Tijuca. Com um dos sambas mais bonitos do ano (e dos últimos anos), ela, com a consciente perspicácia de seu presidente, sofreu o peso, ou melhor, a falta de peso da bandeira. Vila Isabel que veio com fantasias e alegorias incompletas, ganhou notas melhores que a escola do Morro da Formiga. Ou seja, aquele velho papo de que jurado não tá nem aí pra julgar desfile, parece que já estabelece as notas de acordo com a fama do julgado e vai assistir ao certame. Beija-Flor, que ultimamente falou sobre mangalarga, Roberto Carlos e outros enredos inso$$o$, foi até muito bem na apuração final, pra quem apelou pro seu chegas Boni, um enredo biográfico sem propósito. Até Unidos da Tijuca teve mais contexto com Senna no ano em que se completam duas décadas sem o ídolo.

 

Voltamos ao presidente Tê, ele deu duas declarações ao jornal Extra que me levantaram essa ideia. Primeiro, ele desabafou, provavelmente ainda abalado com seu rebaixamento, após um desfile belíssimo e muito elogiado:

Tê com o 1º casal tijucano. Foto: Fábio Duarte

Tê com o 1º casal tijucano. Foto: Fábio Duarte

Não fiz carnaval para aquelas notas. Sinceramente, não tenho nem mais vontade de voltar a desfilar no Grupo Especial. A gente briga tanto no Acesso e chega no Especial e acontece isso”.

 

Muitos podem pensar que é mimimi, chororô e conversa de quem ousou demais ao tentar se equiparar aos deuses do Especial, mas eu digo, nada de Ícaro querendo voar alto demais, ele falou algo que faz todo sentido depois, e que complementa seu desabafo inicial:

 

A única coisa que a Lierj (liga que organiza a Série A) perde para a Liesa (liga que organiza o Grupo Especial) é na questão da verba. Meu pedido é que ajudem as agremiações da Série A a ter um patrocínio digno para fazermos grandes carnavais. Aí acaba essa coisa de querer subir”.

 

Então, não faz todo sentido? Já que a prefeitura, por exemplo, não tá ajudando nem bloco tradicional, o que dizer de escolas do grupo de acesso. Mas a proposta é boa, ao invés de colocar 10 crianças se estapeando pra UMA levar surra no próximo ano e voltar de olho roxo no ano seguinte, porque não estruturam bem o acesso pra que ele se torne uma atração à parte? Assim, o grupo de acesso deixa esse caráter transitório e passa a ser visto como um grupo autônomo e soberano. Uma emancipação. Lembrando que um projeto de Cidade do Samba para essas escolas ainda está on papel, seria uma boa.

Por exemplo, o Cacique de Ramos, o Bafo da Onça, Boêmios de Irajá, Embaixadores da Folia, Carmelitas, e até o Bola Preta – apesar de super lotado – sabem que são instituições do carnaval. Não querem subir de categoria, se refestelam em seu caráter de embalo. Seria legal se o grupo de acesso tivesse essa coisa mais, ‘ei, querer visitar o especial é legal, mas aqui é nossa casa’. Passaria a responsabilidade para os gigantes. Assim, a subida e o rebaixamento apenas seriam uma espécie de intercâmbio e não um pega-pra-capar.

 

Eu gostei e apoio, porque se não, sempre saberemos qual é a escola cotada pra cair: A pequena que acabou de subir e não pesa nem na consciência dos jurados, muito menos na bandeira do carnaval especial. Eu já tinha falado, no meu círculo social, o samba do Império da Tijuca era, junto ao Salgueiro, Portela, Ilha e Mangueira, meus preferidos por terem melodias de samba e não aqueles clichês melódicos que parecem sempre a mesma música. Aí, me dei conta que, a despeito da lógica, Beija-Flor cantando Boni tinha muito mais chances de êxito do que Tijuca cantando África, coisa que já deu campeonato pra Beija-Flor. Sempre escolhem a pequena pra tirar pontos, pra aliviar as tensões dos especiais. Tipo, “ah, com tanto nome famoso, derruba essa aqui que chegou agora, ó”.

 

Eu defendo que se reforce o grupo de Acesso para que não seja uma disputa por acesso e sim um título autônomo. É aquele negócio, se em casa você tem uma bela refeição, dificilmente vai ficar babando pra sentir o cheirinho da casa do vizinho e voltar correndo pra casa pra comer pão-com-êpa.

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Falando Nisso... e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s