Maracangalha: A história de um mentiroso

Eu sempre gosto de falar alguma coisa pertinente à data da publicação de um texto, ligar seus conceitos ao contexto histórico e tals, me faz sentir que o conteúdo ganha mais corpo. Foi assim com inúmeros textos, você pode comprovar só olhando ali no arquivo por meses e anos.

Agora, não mais que agora, me aparece uma história que eu sempre tive curiosidade pra saber (dah, entre todas no mundo, né?) e quando descubro, percebo que ela acontece numa data muito pertinente. Vou explicar no próximo parágrafo.

É que eu fui procurar, na verdade, a letra cifrada de Maracangalha, do sempre admirável Dorival Caymmi e vi que a data em que isso aconteceu foi muito conveniente. Justo no dia da mentira, eu vejo a questão.

Maracangalha

Primeiro, vamos explicar uma coisa, Maracangalha existe mesmo (tipo Tangamandápio, Rá!). É um distrito do município de São Sebastião do Passe e ponto turístico onde há a Praça Dorival Caymmi (em forma de violão, 1972), a Capela de Nossa Senhora da Guia (1963) e a Usina Cinco Rios (1912), e que chegou a produzir 300 mil sacas de açúcar por ano. Guarde essa informação final.

Dorival e Zezinho

Dorival tinha um amigo de infância, Zezinho, que costumava dizer “Eu vou pra Maracangalha…”. O assunto todo surgiu, porque Zezinho contou a Dorival que tinha uma amante, Áurea, em Itapagipe, e com ela, ele tinha 4 filhos. Só que Zezinho era casado com Damiana e ‘tinha’ que arrumar um jeito pra ver sua outra família. Para isso, ele bolou todo um esquema para ter o motivo de saída de casa e a prova, na volta, de que havia sido ‘sincero’ (aham, Cláudia!).

O disfarce

Zezinho se abriu com o amigo compositor, explicou que ele enviava um telegrama a si mesmo onde dizia que sua atenção era necessária em negócios no vilarejo. A partir daí, ele avisava em casa que precisava viajar e estava coberto pela própria lorota. Na volta, ele trazia um saco de açúcar, para comprovar que tinha ido a Maracangalha, pois a Usina Cinco Rios era uma das maiores fontes de movimentação econômica da região. Pronto, o ‘álibi perfeito’.

A música

O samba foi feito num fôlego só, assim, de uma vez, só porque, naquela tarde de julho de 1955, Dorival tinha transformado em palavras seu encanto pela sonoridade do nome do pequeno distrito, assim como a inusitada história que o levou a ficar com essa ‘fixação’ por Maracangalha. O resto, como diz o clichê, é história e a canção toca em carnavais, rodas de samba e, assim como muitas do compositor baiano, parecem que sempre existiram tamanha a naturalidade com que nos faz viajar em seu universo. Ah, a Anália era uma musa inspiradora pela veia musical e cultural, mas isso foi liberdade criativa do autor.

Conclusão

Dorival agradece a Zezinho pela ideia e eu agradeço a Dorival pelo ensejo do artigo. Em homenagem ao dia 1º de abril, um grande abraço a Zezinho, por ter motivado uma das canções brasileiras mais conhecidas com uma história verdadeiramente de agente de vida dupla.

Fique com uma pala da história e da canção do próprio autor.

Fonte: Caymmi, Stella. Dorival Caymmi. O mar e o tempo, São paulo, Ed. 34, 2001, p. 329.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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Uma resposta para Maracangalha: A história de um mentiroso

  1. Dam disse:

    Beo texto. Resume bem o pequeno vilarejo

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