Por uma alforria das escolas de samba!

Texto originalmente publicado no site www.sidneyrezende.com pelo meu camarada sempre pertinente Hélio Rainho e, por dizer exatamente a filosofia deste blog e essencialmente tudo o que penso sobre a cultura que originou as escolas de samba, não tive coragem nem de me basear, vai na íntegra mesmo, com o aval e o crédito, lógico.

Por uma alforria das escolas de samba!

Semanas após o carnaval, o enredo é o silêncio.
Pronto. Acabou.
Os erros, os descasos, as injustiças, as justificativas veementemente acéfalas passaram.
E o que fazemos de tudo isso?
Calamos, silenciamos?!
Não. Ah…não mesmo!!!

Não estudei Comunicação Social para tão somente dominar a técnica, manusear a ferramenta, executar os recursos. Meu interesse foi pela Comunicação como ciência social. Ou seja, antes mesmo de aprender a utilizá-la, minha alma me impulsionou a questioná-la, “filosofá-la”, pensar sobre a ética em seu uso.

Aqui me intitulam “blogueiro”, e confesso que ainda acho esse termo pejorativo. Parece que ser “blogueiro” é sair por aí irresponsavelmente escrevendo o que se quer onde se pode. Mas entendo que o uso desse termo em um site profissional e dedicado como este seja justamente para reforçá-lo como profissional sério, consciente, e distingui-lo de ser apenas “alcunha”, a ser usada por qualquer um. Uma professora de Antropologia ensinou-me que os comunicadores sociais seriam os “feiticeiros eletrônicos do século XXI”. Juntei a isso a frase-símbolo do personagem Homem-Aranha: “grandes poderes, grandes responsabilidades”. Penso assim: não adianta exercer sem servir.

Ora, se não quero ser “qualquer um”, não posso me dar ao silêncio e me igualar aos agentes de comunicação monopolistas e seus mancomunados que absorvem o carnaval como festa sazonal e, dentro dela, atiram a escola de samba, subjugada a produto de uma festa, como uma laranja podre dentro de um saco.

Não é!

A escola de samba “acontece” o ano todo; ela “apenas” desfila no carnaval. Me desculpem, senhores vendedores de laranja podre! Não queiram nos igualar a seus seus restos de xepa! A escola de samba é alma, é resistência, é quilombo cultural, é ancestralidade. Temos muito mais a dizer do que um enredo fala! A escola de samba “já viu você chorar na hora do seu desfile encerrar”; a escola de samba “é patente, só demente que não vê”…”atrás da escola de samba só não vai quem já morreu”! Insensíveis, dementes e mortos são vocês! Nós, a escola de samba, estamos vivos!

A forma burra, interesseira e usurpadora com que a grande mídia trata a escola de samba tenta nos convencer de que estamos assistindo a uma coisa pequena e oportuna, sem referência nem “representamen”, como um objeto de consumo. É o que Guy Debord chamava de “Sociedade do Espetáculo”. E é por isso que, dentro dessa lógica, a mídia se cala e consente a insuficiência mental e ética dos nossos jurados: porque ambos – mídia e jurados – são, por consenso, distantes e alheios daquilo que exibem e julgam. Estrangeiros de sua própria festa, acreditam que bundas e carroças de cachorro-quente são figuras mais imponentes do que a águia, a coroa, a estrela, o pavão.

Para eles, o dono do carnaval é o piloto, não o crioulo! Eles querem Michael Jackson, não Nélson Sargento! Assim como, um dia, tentaram envelopar o samba africano, crioulo e favelado num modelito americanizado, jazzístico, zona sul, “pra inglês (branco) ver”, substituindo o grito de Zumbi pelo “canto baixinho” de joões&gilbertos sem graça nenhuma, sem respeito por público nenhum, endeusados até hoje por intelectuais burgueses e baba-ovos da vez que cultuam grosserias e destratos.

Reparem como reinventam nossos sambistas aprisionando suas formas em seus conteúdos: o sambista que comenta os desfiles é o animador de auditório do “Esquenta”, nunca o compositor célebre de sambas-enredos dignificadores do ofício. Porque a grande mídia faz a escola de samba estar na TV dos brancos e abastados da mesma forma que a favela, os crioulos e pobres estão no cinema e na novela das oito: com a concessão de só ocuparem o espaço se puderem ser retratados como seres primitivos, inferiores, exóticos, extra-sociais. Ou somente após serem redefinidos e redesenhados segundo seu diapasão.

Certa vez contemplei, num desses camarotes de avenida que me dão náusea, disputados a tapa por alguns colegas de ofício, uma cena desoladora. Um passista negro sambando numa nuvem de brancos abastados, sendo abordado como quem solta um bicho de uma jaula e diverte-se ao vê-lo sacolejar em meio aos nobres. Uns queriam tocar-lhe como quem se acha no direito (tipo “paguei por isso”); outros evitavam o contato físico porque admiravam o “profano” sem almejar “corromper-se” tocando.

Pois assim vejo, genericamente falando, a postura de submeter nossos artistas de escola de samba ao crivo desses jurados: é uma reinvenção de nosso antigo ritual de expor os negros escravos à revelia do gosto peculiar dos senhores de engenho, que lhes davam “nota” por uma boa arcada dentária, “premiando” apenas aquilo que lhes serve ou interessa, sem respeitar a individualidade e o valor intrínseco daquele que está se exibindo.

Com o passar dos anos, o negro afirmou seus direitos, reiterou suas lutas. Mas ainda não se conscientizou de que, na escola de samba, está escravo e cativo ao senhorio dos “emissores de nota”, numa postura subserviente, sendo obrigado a cortejar e cativar uma bancada de nativos estranhos ao seu meio, na situação degradante de implorar uma nota que não vem. Porque os donos do engenho castigam quem eles querem, engrandecem quem lhes convém, e tripudiam da justiça e da sociedade com justificativas que debocham da racionalidade de todo mundo, gargalhando como hienas em seu abusivo exercício de poder.

Não é de se admirar a sua repulsa “à batucada que se espalha nesse chão”!

Lembrei-me do ritual de lavagem do Sambódromo. Embora não sendo agnóstico, me oponho ao misticismo exagerado que privilegia o ritual em detrimento do rito. A avenida não precisa de descarrego com litros de cachaça, nem de lavagem da passarela com terreiros antes dos desfiles.

A verdadeira lavagem de que se precisa é o descarrego da subserviência, das estruturas de burrice, do monopolismo, do desrespeito e da ignorância desses falsos senhores de engenho que chibatam a nossa cultura e a reduzem a números fracionados e notas burras escondidas num papel, cuspidas na nossa cara ano após ano numa quarta-feira de cinzas…

Facebook Hélio Ricardo Rainho
Twitter @hrainho

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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